Cartas a Guiomar: A eucaristia (10)

Cartas a Guiomar: A eucaristia (10)

Portugal assume esta intenção no dia 16 de março

Querida Guiomar,

Estávamos ontem a falar daquele quadro que havia na sala de jantar da casa dos teus avós (também havia um com o mesmo tema na dos meus), com treze homens sentados à volta de uma mesa, e que te intrigava o facto de só haver um pão e um cálice para tanta gente; como te disse, o quadro tem uma história.

Antes de ser preso, e depois condenado à morte e efectivamente morto, Jesus comeu com os apóstolos a ceia pascal (representada no tal quadro), o mais importante rito dos judeus, que assinalava a libertação do povo judeu do jugo dos egípcios e a sua condução à terra prometida. Mas nesta ceia, a última que comeu com os apóstolos, Jesus introduziu uma alteração essencial no rito. Tratava-se de um rito instituído por Deus, e que portanto ninguém tinha poder para alterar – ninguém, a não ser o próprio Deus. E o Senhor alterou-o porque tinha poder para isso (era Deus) e porque, horas depois, teria lugar o acontecimento mais importante da história da humanidade, depois da criação: a redenção dos homens, com a Sua morte na cruz. Jesus altera aquele rito porque as relações de Deus com os homens também se vão alterar: antes da Sua morte, Deus estabelecera com o povo judaico uma aliança que assentava na expectativa do Messias; depois da Sua morte e da Sua ressurreição, Deus estabelece com toda a humanidade uma nova aliança, que assenta na certeza da redenção.

Durante a Última Ceia, Jesus faz uma coisa extraordinária: pega no pão, abençoa-o e dá-o a comer aos apóstolos dizendo: Isto é o Meu corpo. Depois, pega no cálice com vinho, abençoa-o e dá-o a beber aos apóstolos dizendo: Isto é o Meu sangue. Vou repetir. Jesus deu o pão a comer aos apóstolos, depois de lhes dizer: Isto é o Meu corpo; no final da refeição, deu o vinho a beber aos apóstolos, depois de lhes dizer: Isto é o Meu sangue. E os apóstolos comeram o corpo do Senhor e beberam o Seu sangue. Exactamente. Comeram a Sua carne e beberam o Seu sangue. E nós fazemos a mesma coisa.

Podes voltar a ler o parágrafo anterior, por favor?

É que é realmente inconcebível. Se todos os mistérios da nossa fé são grandiosos, este deixa-nos realmente estupefactos – direi mesmo embasbacados, estúpidos a olhar! É inconcebível para qualquer pessoa normal que os católicos se alimentem fisicamente do seu Deus; e Jesus sabia que seria, Jesus sabia aliás muito bem que a crença na eucaristia seria, ao longo dos séculos, a pedra de toque da pertença à verdadeira Igreja de Cristo. E tanto sabia que, uns tempos antes de ter instituído a eucaristia, fez um discurso extraordinário na sinagoga de Cafarnaum, onde repetiu várias vezes que a Sua carne é verdadeira comida e o Seu sangue verdadeira bebida e que quem comesse a carne do Filho do Homem e bebesse o Seu sangue teria a vida eterna. E foi absolutamente inequívoco: o pão que Eu vos hei-de dar é a Minha carne, para a vida do mundo.

Nessa altura houve uns quantos que O seguiam que disseram que aquilo era impossível, e que Ele estava louco (e de facto parecia) e foram-se embora. E, nota, era preciso ter muita, mas mesmo muita fé n’Ele para uma pessoa não se pôr a andar depois de ouvir aquilo – quem é que queria perder tempo de vida e de sono com um excêntrico que dizia que ia dar a comer a Sua carne? E pela vida do mundo, nada menos! Quer fazer de nós canibais, e ainda acha que chega para todos! Cá por mim, tenho quase a certeza de que, ao ouvir aquelas palavras, também teria ido à minha vida. E, no entanto, era verdade. Era a pura e simples verdade. E era tão verdade, que Jesus não foi atrás destes que se foram embora, a pedir desculpa, e a dizer que não era bem aquilo que queria dizer, e que era uma metáfora, e que não era propriamente a carne, era uma representação da carne. Jesus não fez nada disso; pelo contrário, chegou mesmo ao ponto de perguntar aos apóstolos se não se queriam ir também embora. Jesus prefere ficar sem discípulos, prefere mesmo ficar sem os apóstolos (os doze que escolheu um a um), a ceder uma sílaba na afirmação desta que seria uma das verdades mais cortantes da nossa fé.

E Jesus nunca recua um milímetro que seja desta afirmação; nem em Cafarnaum, nem mais tarde, na Última Ceia. Aquilo que Ele deu a comer e a beber eraé – a Sua carne e o Seu sangue. O que nós comungamos, o que está guardado no sacrário das igrejas é o corpo e o sangue de Cristo. Em cada missa que é celebrada no mundo, tem lugar, diante dos nossos olhos, o mais extraordinário dos milagres: aquilo que era pão e aquilo que era vinho passa a ser o corpo e sangue de Jesus. Em cada missa ocorre a transubstanciação; ou seja, a conversão de toda a substância do pão na substância do corpo de Cristo e de toda a substância do vinho na substância do Seu sangue, mediante a eficácia da Sua palavra e a acção do Espírito Santo.

Quer isto dizer que, se o sacerdote estiver validamente ordenado e tiver a intenção de fazer o que faz a Igreja, depois da consagração o pão e o vinho continuam a ter aparência de pão e de vinho (cheiram a pão e a vinho, sabem a pão e a vinho, em suma, parecem pão e vinho aos olhos de qualquer pessoa desprevenida), mas a sua substância, aquilo que eles realmente são, transforma-se, de tal maneira que cada bocadinho de hóstia, por mais pequeno que seja, e cada pinguinha de vinho, contém todo o corpo, sangue, alma e divindade de Jesus Cristo, que está ali tão realmente presente como estava na cruz e como Se encontra no céu.

Mas então, o que é que se passa na Santa Missa? A celebração eucarística é, nada mais, nada menos do que a renovação do sacrifício do calvário. A missa consta de duas grandes partes: na primeira parte, depois da confissão dos pecados e do glória, é proclamada, e depois explicada, a Palavra de Deus; segue-se o credo e a oração universal. Vem depois a segunda parte, em que são feitas as oferendas e em que o sacerdote procede à consagração. Durante a consagração, que é o momento em que o sacerdote repete as palavras que Jesus proferiu na Última Ceia, renova-se o sacrifício da cruz; ou seja, Jesus volta a oferecer-Se ao Pai em resgate pelos nossos pecados. É exactamente o mesmo sacrifício que se dá de novo, e a única diferença é que na missa não há derramamento de sangue, ao contrário do que aconteceu na cruz.

A Santa Missa é o acto mais solene e mais sublime em que os homens podem participar; não há, nem de longe, outro que se lhe compare. E o que ali se passa é uma operação divina: é Cristo que Se oferece de novo ao Pai em sacrifício, por acção do Espírito Santo. Diante dos nossos olhos. Nós não ouvimos o silêncio que caiu sobre o calvário, não ouvimos os soluços contidos de Nossa Senhora e das santas mulheres, o zumbido das moscas e o matraquear dos dados dos soldados nas pedras da calçada, não vemos o sangue a correr das feridas de Jesus e a noite a cobrir a terra ao meio-dia, não O ouvimos bradar: Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito – não vemos nem ouvimos nada disso, mas o sacrifício é exactamente o mesmo, o oferecimento é exactamente o mesmo; a única diferença é que, na cruz, foi oferecido de forma cruenta (com derramamento de sangue), enquanto no altar, é oferecido de forma incruenta. Por isso, a missa é a oração mais eficaz diante de Deus, a intercessão que Deus Pai mais aprecia, porque é feita pelo Seu próprio Filho. Na cruz – e na celebração eucarística –, Jesus coloca-Se entre nós e Deus, por assim dizer, dando-Se ao Pai como garantia do que pede para nós; e como é que Deus pode recusar o que quer que seja ao Seu próprio Filho?

A eucaristia é, assim, sacrifício – na missa – e sacramento – na comunhão; e, em qualquer destas dimensões, uma prova incomparável do amor de Deus pelos homens. Deus não Se limitou a encarnar, nascendo num presépio e vivendo uma vida de operário remediado. Não Se limitou a deixar-Se prender e matar com a morte que os romanos reservavam aos escravos. Tudo isso já teria sido muito, tudo isso já teria sido uma humilhação extrema. Mas Deus quis humilhar-Se ainda mais e ficar num pedaço de pão, fechado em caixas por todo o mundo e por nossa ordem, sozinho vezes sem conta e horas intermináveis, para que nós pudéssemos tê-Lo à nossa disposição (o Francisco Marto, o vidente de Fátima, chamava-lhe «Jesus escondido»). Jesus na eucaristia é o maior tesouro da Igreja; nenhuma riqueza, nem mármores nem ouros, nem pinturas nem estátuas, nem arcos nem pratas, nem edifícios nem cálices, nada se pode comparar com este tesouro preciosíssimo que é o próprio Deus, ali presente por nosso amor.

A Igreja estabelece que participemos na Santa Missa todos os domingos e dias santos de guarda, e que comunguemos ao menos uma vez por ano, pela Páscoa (mas é melhor que comunguemos sempre que vamos à missa, se estivermos devidamente preparados, claro). Para os cristãos, a participação na missa dominical não é facultativa; é obrigatória – é mesmo para ir! Mas vendo bem, e uma vez mais, o mínimo dos mínimos que um católico pode fazer é ir à missa ao domingo e nos outros dias de preceito (repara só na desproporção: uma semana tem 168 horas; dessas, passamos 56 a dormir, pelo que restam 112; e dessas, uma é dedicada à missa – não chega a 1% do tempo). Mas, se for mais vezes, só lhe fará bem; e, mesmo não podendo ir diariamente à missa, qualquer pessoa, em situação normal, consegue passar uma vez por dia diante dum sacrário, para ir prestar a sua homenagem ao Rei dos Reis. Comentava uma pessoa que não era crente que era impossível que os católicos acreditassem realmente que Cristo está no sacrário, porque de outra maneira as igrejas não estariam tão vazias – e, de facto, muitas vezes comportamo-nos como se não acreditássemos. Se nos dissessem que Jesus tinha voltado à terra, íamos provavelmente a correr para O vermos; Jesus ainda não voltou à terra, mas também nunca deixou de cá estar – está no sacrário quando podia estar descansadinho no céu, e nós passamos dias que nem nos lembramos.

O certo é que nos apercebemos melhor da riqueza que temos quando passamos por situações extremas. Oxalá não nos venha a acontecer, mas os casos de Walter Ciszek e do cardeal Van Thuan são dois casos realmente extremos. Ciszek foi um padre jesuíta que esteve preso num campo de concentração da União Soviética, onde os presos passavam condições físicas dificílimas: trabalhavam 16 horas por dia com frio intenso, alimentados a nacos de pão e a caldos quase intragáveis, dormindo sobre tábuas infestadas de piolhos, tendo de se defender da violência dos outros presos. Mas, sendo padre, Ciszek conseguia ocasionalmente celebrar a missa, e nesses dias passava palavra aos outros católicos que havia no campo. Nesta altura, o jejum eucarístico estabelecia que não se comesse nada desde a véspera, mas o padre Ciszek só conseguia celebrar ao fim do dia, quando terminava a jornada de trabalho; por isso, estes homens, que já sobreviviam em condições extremas, passavam o dia sem comer, para poderem comungar ao fim do dia. E, diz Ciszek, não se queixavam, antes se consideravam imensamente afortunados por poderem receber a Jesus na eucaristia.

O cardeal Van Thuan era um cardeal vietnamita, que foi preso pelas autoridades do seu país e passou vários anos em solitária, numa cela de prisão sem janela, de tal maneira húmida, que lhe cresciam cogumelos no catre, onde tinha de passar o dia a andar dum lado para o outro para não perder a mobilidade (e provavelmente também para não enlouquecer). Mas conseguiu que lhe mandassem um frasquinho de vinho (dizia que era um medicamento para o estômago – e era: para o estômago e para o resto) e, com o pão que lhe davam, celebrava a missa de cor, às três da tarde, a hora a que Jesus morreu, com umas gotas de vinho na palma da mão. E dizia que se sentia feliz naquela situação, porque era onde Jesus o queria. E nós, que precisamos tanto da eucaristia como estas pessoas (ou mais!), deixamos de ir à missa por dá cá aquela palha – faz pensar, não faz?

Para podermos comungar, temos de cumprir determinadas condições:

  • * ser baptizado (e saber o que se está a fazer)
  • * estar em estado de graça (ou seja, não ter consciência de ter cometido nenhum pecado mortal desde a última confissão válida)
  • * cumprir o jejum eucarístico (ou seja, não ingerir bebidas nem alimentos nos 60 minutos antes da comunhão, excepto medicamentos e água; os doentes e as pessoas que deles cuidam estão dispensados desta condição)
  • Mas atenção, o facto de não estar em condições de comungar não dispensa um católico de participar na missa todos os domingos e restantes dias de preceito.
  • A eucaristia, que é um verdadeiro alimento da alma, tem os seguintes frutos:
  • * aumenta a nossa união com Cristo e com a Igreja
  • * conserva e renova a vida da graça
  • * aumenta em nós a caridade
  • * perdoa o pecado venial (ou leve)
  • * preserva do pecado mortal (ou grave)
  • * faz-nos desejar a vida eterna

A eucaristia tem uma peculiaridade interessante: é que, enquanto os outros alimentos são transformados em nós por acção do nosso aparelho digestivo, a eucaristia transforma-nos nesse alimento que recebemos, ou seja, no próprio Cristo; através da eucaristia, vamo-nos parecendo cada vez mais com Aquele que a nós vem através dela.

Tendo Deus Nosso Senhor, em cuja mão repousa o universo, tido a incomparável generosidade de ficar entre nós, de habitar nas nossas igrejas sob a forma de uma tirinha redonda de pão ázimo, é de muito bom tom ter para com Ele algumas provas de civilidade básica. Por exemplo, cumprimentá-Lo. Quando entramos numa igreja, a primeira coisa que devemos fazer é dirigir-nos ao Santíssimo e fazer uma genuflexão diante dele – um gesto pausado, digno, o joelho poisado no chão, acompanhado de um acto de amor; e, sempre que passamos diante de um sacrário, devemos renovar este gesto de adoração.

Depois, para entrar dentro de uma igreja, a pessoa tem de ir vestida com dignidade. Estamos a entrar na sala do trono e o Rei (que também é o nosso Pai) está lá, à nossa espera! Por isso, não se entra numa igreja (e muito menos se vai à missa) de mini-saia, nem de calções (à excepção dos miúdos, claro), nem de calças rotas, nem de blusa de alcinhas (e muito menos sem alças), nem de chinelas… Não se entra numa igreja (e muito menos se vai à missa) como se vai para a praia! Também não se mastiga pastilha elástica nem gomas; não se come, não se dorme nem se grita.

Finalmente, não se conversa dentro da igreja! Quero eu dizer, não se conversa com as outras pessoas (e ainda menos ao telemóvel); a igreja não é uma sala de estar, para onde a gente vai conversar sobre a chuva e o bom tempo. O máximo que se pode fazer dentro da igreja é dar um recado rápido; a conversa faz-se lá fora. Porquê? Bem, a razão menos importante é que normalmente há outras pessoas a rezar lá dentro, e a conversa incomoda-as; mas a razão mais importante é que é uma realíssima falta de educação estar à conversa com o vizinho quando estamos na presença do Senhor do Universo! Nosso Senhor está ali realmente presente, e está ali realmente presente exclusivamente por nossa causa! De maneira que, dentro da igreja, é com Ele que se fala. Para falar com as outras pessoas, temos o resto do dia todo; quando estamos dentro da igreja, temos a cortesia de Lhe dar conversa a Ele, que é para isso que Ele ali está há 2000 anos, e é isso que espera de nós.

Espero que tenhas ficado esclarecida; até amanhã, se Deus quiser! P.S. – Em Portugal, são dias santos de preceito (todos são feriado): Nossa Senhora, Mãe de Deus (1 de Janeiro); Corpo de Deus (quinta-feira, 60 dias depois da Páscoa); Assunção de Nossa Senhora (15 de Agosto); Todos os Santos (1 de Novembro); Imaculada Conceição (8 de Dezembro); Natal (25 de Dezembro).

*Maria José Figueiredo

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