Cartas a Giomar: A criação (2)

Cartas a Giomar: A criação (2)

Querida Guiomar,

Pois é, este Deus completo e feliz decidiu… criar! Exactamente! Deus, que não precisa de nada, resolveu fazer, a partir do nada, uma série de seres, todos necessariamente (muito) inferiores a Ele, que manifestam o Seu poder e a Sua glória. Criar significa isso: fazer a partir do nada; ou seja, não havia nada – nada! – e Deus trouxe as coisas à existência. E só Deus pode fazer isso; criar é uma obra exclusivamente divina (nós, os homens, quando «criamos» alguma coisa, fazemo-lo sempre a partir de algo já existente; é por isso que aquilo que fazemos, por muito original que seja, é mais propriamente uma «modificação» do que uma «criação»). Só Deus pode criar e, conversamente, só Deus pode aniquilar.

Mas Deus não Se limitou a criar e ir depois à Sua vida, como quem desse início a um jogo de bilhar e depois deixasse as bolas a bater umas nas outras até ao fim dos tempos. Os seres criados precisam da permanente assistência de Deus para subsistir; é a chamada providência divina (que não convém confundir com a caixa de previdência). Se Deus fosse à Sua vida… puf!, o universo deixava de existir dum momento para o outro. Não é que houvesse uma gigantesca explosão e morrêssemos todos, ou qualquer coisa assim; não, muito simplesmente deixávamos de ser, revertíamos para o nada!

Foram pois criados os planetas e as estrelas, e os universos que conhecemos e aqueles que nem nos passam pela cabeça, e as plantas e os animais (que podem ter sido criados todos duma vez só, ou como consequência da evolução, se se vier a provar que houve evolução de umas espécies para as outras), as cores e os cheiros, as asas das borboletas e as mitocôndrias, os sóis e os gatos, as massas vulcânicas e o luar de Janeiro, a música e as dunas do deserto – pois tudo quanto há, seja obra nossa ou fruto directo da mão de Deus, tudo vem de Deus e tudo foi criado para Sua glória.

Mas, depois de ter criado uma variedade incrível de coisas visíveis, umas inanimadas e outras vivas, Deus viu que não tinha feito nenhum ser com quem pudesse realmente partilhar a felicidade que Se vive no seio da Trindade, porque não tinha criado nenhum ser capaz de conhecer e amar. Resolveu então meter-Se em sarilhos e criou os anjos e os homens.

Quer os anjos (que são seres invisíveis), quer os homens, têm uma natureza espiritual. Os anjos não têm corpo, são espíritos subsistentes; nos homens, essa natureza espiritual, que é a alma, está unida a um corpo, de maneira que as competências espirituais humanas são mais limitadas que as angélicas. Tanto os anjos como as almas humanas foram directamente criados por Deus; ou seja, por muito que tenha havido evolução da matéria, a alma de cada homem é um produto imediato de Deus, não resulta de nada anterior a ela.

Por terem uma natureza espiritual, os anjos e os homens têm a capacidade de conhecer e a capacidade de amar, e é nessas duas capacidades superiores que encontram a sua mais excelente expressão, e portanto a sua maior felicidade. Como Deus é o objecto mais perfeito e excelso, quer da inteligência, quer da vontade, conhecer e amar a Deus é aquilo que mais felicidade pode causar, tanto aos anjos, como aos homens (é mais ou menos como manter uma eterna paixão tórrida com um ser absolutamente deslumbrante que ainda por cima está completamente perdido de amores por nós). Acontece (surpresa!) que foi exactamente para isso que os anjos e os homens foram criados – é impressionante como tudo bate certo!

É pelo facto de serem capazes de conhecer e de amar que os seres humanos se encontram no cume da criação visível; há na natureza uma ordem, uma hierarquia, que vai do menos perfeito para o mais perfeito, e nós – por muitos defeitos que tenhamos – somos os mais perfeitos de todos os seres visíveis. Por esse motivo, os restantes seres da criação estão ordenados a nós, e por isso nós temos o direito de os usar; e somos os únicos que temos direitos, porque somos os únicos que temos racionalidade. Mas o homem é o senhor da criação porque Deus lha confiou! É um senhorio emprestado, como tudo o que temos. O que significa que podemos usar os outros seres para satisfazer as nossas carências, mas temos a obrigação estrita de cuidar deles para glória de Deus e para a promoção do bem comum.

Os cristãos são, aliás, os únicos que têm consciência desta obrigação; não admira que tenhamos sido nós a inventar a ecologia – mais concretamente, São Francisco de Assis, um frade do século XII-XIII que dormia ao relento, falava com os lobos, tratava as vacas e o sol por irmãos, e a quem Deus recompensou com os estigmas do Crucificado (os estigmas são marcas das cinco chagas de Cristo, uma em cada mão, uma em cada pé e uma no peito, com que Deus assinala miraculosamente certas pessoas).

Ora, como Deus está muito acima de nós, mesmo apesar de termos capacidades espirituais à semelhança das d’Ele (é por isso que o livro do Génesis diz que fomos criados à imagem e semelhança de Deus), a nossa capacidade de O conhecer e O amar é, sem a Sua ajuda, muito limitada; de maneira que só podemos aceder a Ele se for Ele a estender-nos a mão. E Nosso Senhor estende-nos a mão infundindo em nós, no baptismo, três virtudes teologais: a fé, a esperança e a caridade, que nos permitem ter uma participação especial na vida divina, ou seja, que nos conferem uma sobre-natureza. Chamam-se teologais porque vêm de Deus (theos, em grego) e porque têm a Deus como objecto. Pela fé, cremos em Deus e naquilo que Ele nos revelou e a que a Igreja põe o selo da verdade; pela esperança, desejamos viver com Ele para sempre no céu; pela caridade, amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.

Apesar de nos virem directamente de Deus, estas virtudes podem ser aumentadas em nós pela prática frequente dos actos correspondentes. Para este efeito, há por exemplo esta oração, muito bonita e curtinha, que foi ensinada pelo Anjo da Guarda de Portugal aos pastorinhos de Fátima: «Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam.»

E assim terminamos a carta de hoje, não sem um pequeno esclarecimento:

P.S. – A noção de criação não é minimamente incompatível com a teoria da evolução; nem a teoria da evolução permite dispensar um Criador. A fé católica afirma que foi Deus que trouxe as coisas à existência; ou seja, que antes de Deus criar só existia Deus, e que depois de Deus criar passou a existir também aquilo que não é Deus. Mas Deus, que é omnipotente, tanto pode ter criado os seres um a um, como pode ter criado as coisas como que em embrião, com a capacidade de se desenvolverem e virem a dar a multiplicidade de espécies que existem actualmente. Seja como for, as coisas não se criaram a si próprias, e esse é o ponto principal da noção de criação. Do nada, nada vem. Antes de existir a primeira molécula, ou a força da gravidade, ou de se ter dado o Big Bang (teoria que foi, aliás, proposta por um cientista católico, o padre Georges Lemaître), ou seja lá o que for que hipoteticamente deu origem ao mundo tal como o conhecemos, antes de isso existir, não existia nada para além de Deus; e o único que produz uma passagem do nada ao ser é Deus.

*Maria José Figueiredo

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