Carta à Guiomar: O baptismo e a confissão (8)

Carta à Guiomar: O baptismo e a confissão (8)

Querida Guiomar,

Estamos portanto redimidos, temos as portas do céu novamente abertas, mas ainda temos bastante que andar. O nosso primeiro passo neste percurso para a felicidade eterna é o baptismo. O baptismo é o primeiro sacramento que recebemos, o sacramento que perdoa o pecado original (e, no caso dos adultos e das crianças que já tenham chegado à idade da razão, todos os pecados que tiverem cometido até àquele momento) e devolve à alma a vida com Deus; é o sacramento que nos torna filhos de Deus. Quando recebemos o baptismo, a alma inunda-se-nos de graça santificante, graça essa que é a própria vida da Santíssima Trindade em nós; com ela, recebemos as virtudes teologais e os dons do Espírito Santo (de que voltaremos a falar um dia destes), e passamos a fazer parte da Igreja.

Com o baptismo, tornamo-nos realmente pessoas diferentes, e é uma mudança que nunca mais se apaga; é isso que significa dizer que o baptismo imprime carácter, e é por isso que só se pode receber uma vez. Por outro lado, ninguém pode ser des-baptizado, por muito que queira, porque os dons de Deus são irrevogáveis: Deus não abre mão daqueles que tornou Seus. O que não significa que todos os baptizados se salvem (ou seja, vão para o céu), embora o carácter se mantenha mesmo naqueles que se condenam (como uma pessoa que nasceu em Viseu não deixa de ser natural de Viseu mesmo que perca a nacionalidade portuguesa e adquira a nacionalidade afegã).

O baptismo é necessário para a salvação. Imediatamente antes de ir para o céu, Cristo ordenou aos apóstolos que fossem pregar o evangelho por toda a terra e que baptizassem todos os homens (e não lhes perguntou o que achavam do assunto). Segue-se daqui que temos a obrigação estrita de conseguir que todas as pessoas que conhecemos sejam baptizadas. O que não significa, obviamente, que andemos às cotoveladas e com um megafone atrás delas; mas significa que temos de rezar, pedindo para elas o dom da fé, e que temos de lhes falar no assunto sempre que for oportuno (e às vezes mesmo quando não é oportuno). É claro que é Deus Quem salva as pessoas, que Deus conhece a alma de cada um e que salva cada um de acordo com as suas disposições. Mas, como dizia recentemente o Papa Bento XVI, cada alma responde perante Deus, e nós, que somos baptizados e conhecemos o incomparável bem que é ser filho de Deus, havemos de responder por não termos feito tudo o que estava ao nosso alcance para que todas as pessoas recebessem o mesmo bem. E isto é muito sério! Deus há-de pedir-nos contas das almas que se condenarem por negligência nossa!

Mas então, se o baptismo apaga os pecados, nos devolve a vida da graça e faz de nós pessoas diferentes, capazes de viver a vida de Deus, a partir dessa altura está tudo resolvido? Nunca mais pecamos? Pois não! Basta acordarmos de manhã! Mas Deus conhece-nos bem e também previu que isso ia acontecer, por isso deu-nos a possibilidade de voltarmos a Ele quantas vezes quiséssemos, mesmo depois de termos cometido os pecados mais horrendos. Essa possibilidade é a confissão, ou sacramento da penitência, ou da reconciliação, ou do perdão.

Nós somos fracos e deixamo-nos levar. Às vezes deixamo-nos levar por coisas grandes, vivemos imenso tempo em situações miseráveis, presas de vícios e de gostos retorcidos; outras vezes deixamo-nos levar por coisas pequenas, minúsculas mesmo, a que não conseguimos dizer que não, e que são ainda mais humilhantes do que as grandes por serem pequenas (pecar em grande escala sempre tem a desculpa do estilo). Em todas estas circunstâncias, podemos recorrer ao sacramento da penitência. Não há nenhum pecado, por maior ou mais ridículo que seja, por mais devastador ou mais terrível ou mais vergonhoso que seja, que não tenha perdão, porque a misericórdia de Deus é infinitamente superior à nossa maldade. Se Hitler ou Estaline se tiverem arrependido sinceramente dos seus pecados (e qualquer deles foi responsável pela morte violenta e sádica de milhões de pessoas e pela destruição da vida de muitas mais), Deus perdoou-lhes.

O sacramento da penitência é uma coisa maravilhosa, mas para sermos perdoados temos de cumprir as quatro condições de que te falei, e que são as seguintes:

  • i) estar arrependidos dos nossos pecados e ter um firme propósito de emenda
  • ii) confessar os pecados
  • iii) receber a absolvição
  • iv) ter a intenção de cumprir a penitência

Vamos então a elas.

A confissão só funciona se estivermos efectivamente arrependidos de termos cometido aqueles pecados e estivermos realmente dispostos a não voltar a cometê-los. A confissão não é uma coisa automática: vamos lá, dizemos umas coisas, recebemos a absolvição e, por artes mágicas, ficamos livres para voltar a fazer o que nos apetecer… Nem pensar nisso! O essencial deste primeiro passo é a disposição pessoal do penitente. Se não estiveres arrependida e decidida a emendar-te, não há perdão. O que não tira que não tenhamos quase a certeza de que vamos voltar a cair – e Deus sabe que sim. Mas naquele momento queremos sinceramente nunca mais pecar, e é para isso que pedimos ajuda.

Em segundo lugar, os pecados têm de ser confessados a um padre no exercício das suas funções pastorais, em confissão pessoal (não há confissões colectivas, porque o pecado é pessoal; pode haver, em situações de catástrofe como a do naufrágio do Titanic, absolvições colectivas, mas com a condição de os sobreviventes depois se confessarem pessoalmente), auricular (ou seja, em presença; não há confissões por telefone nem pela internet) e secreta (não há confissões públicas), depois de um exame de consciência bem feito.

É necessário confessar todos os pecados graves de que te lembres, dizendo quais foram e quantos foram (matei seis pessoas, assaltei três bancos e duas gasolineiras de arma em punho, atirei um candeeiro à cabeça do meu irmão de três anos, dormi duas vezes com o meu namorado, faltei uma vez à missa ao domingo), porque cada pecado grave nos faz perder a amizade com Deus e portanto tem de ser individualmente perdoado na confissão (se te esqueceres de algum, não fiques angustiada; também ficas perdoada dele, embora devas referi-lo na confissão seguinte).

Os pecados leves não têm de ser confessados individualmente, mas convém confessá-los da forma mais específica possível (nos últimos quinze dias, discuti todas as noites com a minha mãe; no último mês, cheguei sempre tarde às aulas por preguiça; anteontem comi um pacote inteiro de bolachas de chocolate, dos grandes), para termos graças específicas para os evitarmos de futuro.

Esconder pecados ao confessor, além de invalidar a confissão quando se trata de pecados graves, é uma rematada palermice. Primeiro (e obviamente), porque não se pode enganar a Deus; Deus conhece-nos por dentro e por fora e da frente para trás, desde o nosso mais remoto electrão ao sentimento mais inconsciente. Depois porque, se a pessoa se vai confessar porque quer que Deus a perdoe, mais vale mostrar tudo o que leva no saco, senão vai com o saco cheio para casa outra vez – e ainda mais pesado, porque invalidar propositadamente um sacramento também é pecado. Quando a gente leva uma coisa que nos custa horrores dizer e nos fica entalada na garganta, o que há a fazer é dizê-la em primeiro lugar; podes mesmo explicar ao confessor que tens de dizer uma coisa que te custa, e pedir-lhe ajuda.

Não sei se sabes, mas os padres conhecem os pecados todos antes de se ordenarem, de maneira que não há nada com que possas surpreendê-los; além disso, se tiverem uma prática regular de confessores (e quase todos têm!), já ouviram os mesmos pecados dezenas de vezes, e não ficam escandalizados – até porque muitos desses pecados eles próprios os confessam (a outros padres; os sacerdotes não se confessam ao espelho). A gente não pode espantar-se de pecar; o pecado é uma coisa péssima, que era óptimo podermos evitar, mas Deus sabe que nós somos assim mesmo: foi Ele que inventou a confissão! Ele sabe com o que conta, e só nos pede que Lhe deixemos perdoar-nos.

Finalmente, e este ponto é muito importante, os padres não podem revelar, nem revelam, o segredo da confissão seja a quem for, seja em que circunstâncias for, mesmo que corram risco de vida. Nem podem, por exemplo, denunciar criminosos ou avisar outras pessoas, com base em informações que tenham obtido na confissão. Se um assassino se vai confessar, é absolvido e, no caso de haver alguém que está a ser injustamente acusado daquele crime, terá de ir entregar-se à justiça; se não o fizer, corre o risco de invalidar a confissão. Mas o confessor não pode ir telefonar à polícia a dizer que tal pessoa é o assassino procurado – nem pode comentar semelhante coisa, sequer ao de leve, seja com quem for! Esta proibição absoluta de revelar coisas ditas em confissão permite-nos ter a certeza de que o que se passa dentro de um confessionário se passa mesmo entre nós e Deus: o sacerdote não pode revelar aquele segredo porque aquele segredo não lhe pertence.

Em terceiro lugar, o sacerdote tem de nos dar a absolvição (e atenção, não no-la dará se lhe parecer que a condição i) não se verifica). A absolvição é-nos dada em nome de Deus – é Deus Quem nos absolve. Repara que o sacerdote diz: Eu te absolvo dos teus pecados; ora, salvo em casos muito excepcionais, não foi a ele que nós ofendemos, foi a Deus, portanto ele não tem nada que nos perdoar, Deus é que tem. Nós confessamo-nos a Cristo, que nos perdoa através do sacerdote, que O representa verdadeiramente; e fazemo-lo porque Cristo quis assim. Jesus deu aos apóstolos o poder de perdoar os pecados (e não lhes perguntou a opinião), e estes transmitiram-no aos bispos, que são os seus sucessores; como não há bispos que cheguem para confessar toda a gente, estes delegam o poder de confessar nos padres.

O sacramento da penitência é uma alegria e um alívio: quando Deus, através do sacerdote, nos perdoa os pecados, nós temos a certeza absoluta de que (cumpridas as restantes condições), eles ficam mesmo perdoados, ou seja, deixam de existir para sempre. Não temos mais dúvidas existenciais, do tipo será que Deus me ouviu, me quer perdoar, e por aí fora. Não, a coisa acaba ali e está resolvida (incrível, não é?). Aqui há uns anos, uma amiga minha contou-me que se tinha ido confessar muito perturbada: um grande amigo dela tinha-se suicidado, e ela achava que não tinha feito tudo para evitar o suicídio; o rapaz era jovem e talentoso, tinha confiado nela e ela sentia que o tinha, de certa maneira, atraiçoado. E contou isto ao confessor; ele ouviu-a com toda a seriedade e respondeu-lhe: se teve alguma culpa, fica aqui perdoada. E dizia ela que, ao ouvir aquelas palavras, tinha sentido uma enorme paz, porque percebeu que a única Pessoa que podia perdoar-lhe o que ela tinha eventualmente feito lhe tinha efectivamente perdoado. E assim, uma coisa que podia ter levado anos de psicoterapia e custado rios de dinheiro, ficou ali resolvida – e resolvida a sério, nota bem, perdoada toda a culpa – em quinze minutos (e de graça!).

O último passo do sacramento da reconciliação é o cumprimento da penitência que o sacerdote nos impõe. Quando cometemos um pecado, ele deixa uma ferida em nós; a penitência serve para apagar essa ferida e restabelecer o estado de pureza. Um exemplo: quando espetamos um prego na parede (pecado), abrimos um buraco; depois podemos tirar o prego da parede (confissão), mas o buraco fica lá; para alisarmos novamente a parede, temos de encher o buraco de massa, passar a lixa e pintar por cima – é isso que faz a penitência. Nota que o não cumprimento (expresso e propositado) da penitência não invalida o perdão dos pecados; mas é um novo pecado. Normalmente, as penitências que os confessores nos dão são pequeninas (eles fazem outras maiores por nós); mas nada nos impede de oferecermos pequenas penitências, em remissão pelos nossos pecados e pelos dos outros.

Como vês, o sacramento do perdão é uma coisa verdadeiramente maravilhosa. Custa, claro que sim, e às vezes custa mesmo muito. Mas sai-se de lá tão limpinho, tão novo, que vale toda a pena. Além disso, quando a gente se confessa com uma certa frequência, começa a custar menos, porque a gente já se deu a conhecer ao confessor e, se formos sempre ao mesmo padre, é mais ou menos como irmos a um daqueles médicos que nos conhecem desde pequeninas e têm uma noção muito aproximada das nossas maleitas. Por outro lado, um dos efeitos da confissão frequente é facilitar-nos o combate ao pecado, quer ao pecado mortal, quer ao pecado venial; torna-se menos provável pecarmos gravemente, percebes? E quase sem a gente perceber como – mas Deus percebe: é Ele a agir na nossa alma.

A Igreja manda que os fiéis se confessem pelo menos uma vez por ano. É o mínimo dos mínimos, é assim uma dieta de sobrevivência de um naco de pão e um copo de água de manhã e um naco de pão e um copo de água à noite, todos os dias. É claro que há pessoas que sobrevivem com este regime alimentar, porque não têm acesso a mais do que isso, mas pouco mais são do que esqueletos. Seria, porém, francamente insensato (e inumano) manter um regime destes quando se está diante de uma mesa cheia de iguarias. Com a confissão é a mesma coisa: uma vez por ano deve dar para manter a vida da alma; mas mantém-na tão fraquinha, tão fraquinha, que pouco mais é que uma sobrevivência. E temos à nossa disposição um banquete de vigorosas calorias na confissão frequente.

Por outro lado, sendo o sacramento da penitência uma coisa tão boa, os católicos têm a obrigação de a dar a conhecer a muita gente. Às vezes, as pessoas são baptizadas (só os baptizados podem confessar-se, evidentemente), mas nunca lhes falaram da confissão, ou não se confessam há tanto tempo que perderam o hábito. É preciso levá-las lá, como quem as leva à nova geladaria que abriu no Chiado: porque poucas coisas dão tanta alegria à alma! Vai descansar!

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