Café Tavares: “Ti” Júlia

Conhecido por café da Ti’ Júlia é, provavelmente, o café mais antigo do concelho de Proença-a-Nova.
O Jornal de Proença (JP) entrevista Maria Júlia Alves de Matos Tavares, proprietária do Café Tavares no Peral.
Natural de Sobreira Formosa, filha de comerciante, a Ti Júlia começou a trabalhar no café na semana a seguir ao seu casamento que se realizou a 24 de fevereiro de 1968. Entre muitas outras coisas, tinha o sonho de ser enfermeira, mas acabou por exercer a profissão do pai e continuar o negócio do sogro.
Café Tavares?
Tavares é o apelido do meu falecido marido que eu adotei pelo casamento. O nome do café já vem do meu sogro, Luís Tavares, que foi o fundador desta casa. Não sei quando é que o meu sogro começou o café, mas nas minhas mãos já tem 55 anos.
Como era o café quando chegou em 1968?
O meu sogro tinha uma taberna e um espaço onde vendia fazenda, isto é, panos para, por exemplo, fazer roupa. A estrutura do estabelecimento manteve-se inalterável. As prateleiras são as originais. Elas são de Madeira, mas estão forradas porque não é permitido expor os actuais produtos de outra maneira. Aquele relógio antigo já vem do tempo do meu sogro e esteve sempre naquele lugar. Houve pequenas alterações: o balcão da taberna era de madeira e tinha na fronte uma chapa de zinco e agora está feito a cimento e tem uma pedra mármore. As madeiras do balcão da loja de tecidos ainda são as originais. Conservámos sempre a estrutura original da loja e os seus materiais o mais possível. Mas o chão e as pinturas das paredes tivemos que ir modificando.
Agora não vende tecidos, porquê?
Eu não gostava nem gosto de vender esse tipo de produtos. No início, ainda vendi muitos tecidos. Como não havia missa na Pedra do Altar, as pessoas de toda a freguesia concentravam-se aqui na sede e havia muita procura desses artigos. O meu sogro, aqui ao lado da taberna, tinha este espaço cheio de panos: nas prateleiras, pendurados no teto é onde havia espaço. Este tipo de negócio não me atraía e fui, lentamente, procurando outro tipo de produtos para vender. Neste momento, temos uma mercearia. O meu sogro deu-me a liberdade de ir fazendo as coisas à minha maneira. Ainda vivi com ele aqui 8 anos antes de falecer.
De onde são os seus clientes?
Os meus clientes continuam a ser as pessoas da terra, algumas pessoas da freguesia que vêm ao Peral à missa, a um funeral, à Junta (de freguesia), às consultas do médico no edifício da Junta… há outras pessoas que me vem visitar ou vem a passeio e acham curioso um estabelecimento com esta estrutura antiga e entram. Na antiga Freguesia do Peral, hoje, só há esta mercearia.
Nestes últimos 55 anos, o que tem sido mais importante?
Foi importante fazer aquilo que eu tenho feito e continuo a fazer… tenho 80 anos e continuo a trabalhar até que eu puder. Quando eu não puder haja alguém, claro!

Qual conselho que daria a estes supermercados novos que abrem?
Todos têm direito à vida. Eu também lá vou. Mas nos supermercados novos o atendimento é “tudo a aviar, tudo a aviar”. Aqui é mais calmo, com mais paciência, com mais conversa, é mais pessoal.
Ao longo do tempo como é que foi mudando de produtos?
Antigamente, tínhamos barris com vinho e vendíamos vinho ao copo. Hoje, temos vinho engarrafado ou nas boxes para vender ao balcão. Os produtos mudam pela procura do cliente e também por que os fornecedores trazem produtos novos.
Tem uma caixa de registadora moderna. Como foi a adaptação às novas tecnologias?
Aquela caixa registadora tem 1 mês. Adaptei-me com facilidade a esta nova tecnologia. Agora, já consigo fazer a abertura e o fecho da caixa registadora e os diferentes atos de faturação.
Sente que a sua presença é quase um património nesta Terra?
Sim, pela permanência e por esta casa aberta, sinto que represento o Peral e faço um esforço para o apresentar o melhor possível.
Conte-nos uma história interessante que tenha vivido.
Com 18 anos já ia vender com o meu pai à praça de Castelo Branco e cerejas em junho à feira de Nisa. Uma vez fui com o meu pai para Nisa vender cereja. O meu pai já levava sempre tudo preparado… a balança… já estava eu preparada para começar a vender, quando me diz que já vendeu a cereja toda a um homem porque queria ir ver a tourada. Eu insisti com ele que ficava ali a vender a cereja, mas ele não quis deixar sozinha. O meu pai gostava muito de tourada e de jogar às cartas.
Que outros serviços presta aqui?
Além da bebida e da mercearia, aqui já foi o posto dos Correios. Durante 15 anos recebi aqui pagamentos de telefone e luz. No final de cada mês ia aos Correios, ao Sr. Salavessa, entregar o dinheiro recebido e receber a minha comissão. Depois, estes postos foram acabando. Aqui tive que terminar na altura porque não tinha internet para poder aderir ao payshop. Neste momento, fica cá o correio, encomendas das transportadoras… ainda ontem ficaram 3 para o Marco, o rapaz das cabras… encomendas de farmácia…
Como foi viver os tempos de pandemia?
Nos tempos de pandemia, tivemos, uma vez, 2 meses fechados. Fez-me diferença não só no convívio com as pessoas, mas o que mais me impressionou foi virem-me bater à porta, durante a noite, porque precisavam de 1 kg de arroz ou de 1 kg de açúcar.
Qual foi o momento mais difícil viveu aqui nesta casa?
O momento mais difícil foi, quando cheguei, reorganizar toda a casa: desde as contas até ao negócio. O meu sogro gostava muito do campo e a sua ausência possibilitava alguma desorganização económica e nas vendas. Outra dificuldade foi ausência de luz elétrica no Peral e, por isso, usávamos candeias a petróleo. Na casa do meu pai, em Sobreira Formosa, já tínhamos luz elétrica.
Como é que gostaria de se lembrada no futuro pelas pessoas do Peral?
Gostava de ser lembrada como uma pessoa prestável aqui no balcão e que fiz aquilo que podia pelas pessoas.
Qual é o futuro da do Café Tavares?
O futuro é para a minha filha JuJu e para o marido Zé Manel.

1 Comentário
[…] ainda donativos provenientes da mercearia “Ti Júlia” no […]