‘Bofetadas’ Leais ou ‘Beijos’ Aduladores?…

‘Bofetadas’ Leais ou ‘Beijos’ Aduladores?…
Dom Antonino Dias, bispo de Portalegre-Castelo Branco

Nem uma coisa nem outra, faiscará de imediato o sótão do leitor. E, convenhamos, não é para menos. Mas prossigamos a discorrer sobre a frase em título que nos introduz o tema da correção fraterna entre os crentes, cuja fonte é a comunhão da Trindade. Como sabemos, é um bom princípio não fazer nada por desejo de receber elogios. Agir com humildade, considerar os outros superiores a nós mesmos, procurar não o próprio interesse mas o interesse dos outros são desafios permanentes (cf. Fil 2, 1-5). No entanto, não podemos fazer da nossa indignidade pessoal um impedimento para não agir, mesmo junto de quem é ou pensamos que é mais idóneo ou superior. Dizer que não somos capazes de o fazer porque também temos telhados de vidro, que não vale apena, que não nos vai ouvir, que não vai mudar, que até nos vai aceitar mal, que nos vai mandar tirar a tranca do nosso olho e pedir que o deixemos em paz com o seu argueiro, são argumentos recorrentes e que levam a não agir. Pois que sejam, mas por detrás deste modo de pensar está, não raro, o respeito humano, o comodismo, o medo de ficar mal, a fuga ao cumprimento do mandamento do Senhor que nos manda amar uns aos outros como Ele nos amou. Também pode acontecer que, alguém, em vez do gesto saudável da correção fraterna, opte mais depressa pela crítica e fofoquice a esfolar tal pessoa, ou, então, opte por apoiar e elogiar tal comportamento. O Livro dos Provérbios, porém, se percebe as bofetadas dos amigos sinceros, insurge-se contra o beijo destes fofoqueiros e aduladores (cf. Pr 27,6).

Haverá com certeza muita gente que entrou pelos caminhos da sua destruição, estragando a sua vida e a de outros, porque nunca teve a seu lado um amigo que o ajudasse a ser coerente no testemunho que é chamado a dar, quer no ambiente familiar, quer entre vizinhos, amigos, colegas de trabalho, ambientes lúdicos, etc. Não se trata de repreender, de apontar o erro, de causar sofrimento ou dano. Se o resumo de toda a Lei está em amar o próximo, este amor ao próximo implica empenho em conseguir que a pessoa reconheça o erro e se emende. Trata-se de apontar caminhos que façam sentido, de rasgar horizontes de vida, com humildade, delicadeza e carinho, mesmo que o resultado, apesar das diligências, venha a ser nulo. Trata-se de agir como Jesus agiria nessa situação, com muito amor e estima, com sentido de Igreja e a inspiração do Espírito que se deve pedir. A missão que nos cabe não a podemos calar, até porque “pior és tu ao calar do que ele ao pecar”.

A Igreja fala da importância da correção fraterna. E se este apelo já está presente em muitos textos do Antigo Testamento, a correção fraterna também tem fundamento evangélico. Em Ezequiel, por exemplo, Deus lembra aos profetas essa obrigação de ajudar a mudar comportamentos: “Criatura humana, Eu coloquei-te como vigia da casa de Israel. Quando ouvires a Minha mensagem, tens de os avisar. Se ao injusto Eu digo: “Injusto, é certo que vais morrer”, se tu não avisares o injusto para que mude de comportamento, o injusto morrerá por causa da sua própria culpa, mas é a ti que Eu pedirei contas do seu sangue. Mas se avisares o injusto para que mude de comportamento, e ele não mudar, ele morrerá por causa da sua própria culpa, mas tu terás salva a tua vida” (Ez 33, 7-9). 

São Tiago insiste no mesmo ponto: “Se algum de vós se afastar da verdade e alguém o converter, fique sabendo que a pessoa que reconduz um pecador do caminho errado salvar-se-á a si mesmo da morte e apagará uma multidão de pecados” (Tg 5, 19- 20). O Catecismo da Igreja Católica afirma que a caridade exige aos cristãos a prática do bem e da correção fraterna (CIgC1829). É uma exigência do amor e da justiça, é uma expressão de amizade verdadeira e de responsabilidade mútua pela santidade de todos. Jesus até nos apresentou os passos a seguir nestas situações. Disse-nos que se algum pecasse, fossemos ter com ele e lhe mostrássemos o erro, em particular, só conversa entre os dois. Se ele nos desse ouvidos, teriamos ganho o nosso irmão. Se ele não aceitasse, seria preciso ajudá-lo a perceber a situação, com duas ou três testemunhas. Se, apesar disso, rejeitasse a correção, deveria dizer-se à comunidade. Se também não aceitasse a comunidade, seria preciso fazê-lo entender que ele mesmo se separou da comunhão da Igreja (cf. Mt 18, 15). São Paulo, por sua vez, aconselha os coríntios a se “encorajaram mutuamente” (2 Cor 13,11). E Santo Ambrósio lembra que “as correções fazem bem e são de maior proveito que uma amizade muda. Se o amigo se sentir ofendido, corrige-o mesmo assim; insiste sem medo, mesmo que o sabor amargo da correção o desgoste”. 

No entanto, sabemos que nem sempre é fácil, mesmo quando feita com todos os quês e prudência. Já Séneca, na antiguidade, dava a entender que aceitar a correção fraterna é um sinal de maturidade. Dizia que “o homem bom alegra-se ao ser corrigido; o malvado suporta com impaciência o conselheiro”. E o Livro dos Provérbios afirma que “Quem aceita a disciplina caminha para a vida; quem despreza a correção extravia-se” (Pr 10, 17). 

Também se esconde “uma grande comodidade – e às vezes uma grande falta de responsabilidade – naqueles que, constituídos em autoridade, fogem da dor de corrigir com a desculpa de evitar o sofrimento alheio. Talvez poupem desgostos nesta vida, mas põem em jogo a felicidade eterna – a sua e a dos outros – pelas suas omissões que são verdadeiros pecados”, ensinava São José Maria Escrivã. E acrescentava que “a prática da correção fraterna – que tem raiz evangélica – é uma prova sobrenatural de carinho e de confiança” que não se deve deixar de agradecer quando se recebe nem de a praticar com aqueles com quem se convive, devendo ser feita com toda a delicadeza, com caridade, na forma e no fundo, pois, naquele momento quem a faz está a ser um instrumento de Deus. 

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