Balanço do X Encontro Mundial das Famílias

Balanço do X Encontro Mundial das Famílias

Pe. Alexandre Awi Mello

A Agência Ecclesia, a Família Cristã, o Diário do Minho e a Associação de Imprensa de Inspiração Cristã partilham com o Jornal um trabalho solidário da cobertura do X Encontro Mundial das Famílias.

Foi entrevistado o Padre Alexandre Awi Mello…

Que balanço se podem fazer destes dias?

Muito contentes pelos frutos, pela alegria das pessoas que participaram neste Congresso Teológico-Pastoral, e também o eco que o X Encontro Mundial das Famílias produziu no mundo inteiro. Encontramo-nos num Congresso com as lideranças de mais de 120 países, pessoas que trabalham a pastoral familiar nos seus países, escutar testemunho de tanta coisa bonita que se faz pelas famílias, é de facto algo potente, que, nos deixa o coração cheio de alegria e com muita esperança, que de facto a nossa Igreja tem prestado um serviço muito valioso à sociedade, a partir do fortalecimento da realidade familiar. Acreditamos que, de facto, este Encontro foi um presente da Providência, até pelo seu formato, multicêntrico, difundido em todo o mundo, onde a pandemia inspirou de alguma maneira o Papa Francisco a sugerir aos bispos do mundo inteiro que pudessem replicar esse encontro em todas as dioceses do mundo.

Certamente que as adesões são muito variadas, de acordo com a realidade local, mas sabemos, e temos registo, de muitos lugares onde, neste fim de semana e nestes dias, algo está a ser feito pela família, as famílias estão reunidas sob este tema do amor familiar, a vocação e caminho de santidade, que foi o que pudemos aprofundar neste congresso.

O que é que os participantes lhe transmitiram?

Em geral, há muita satisfação, muita alegria. O dia de hoje sobre a santidade, onde ouvimos testemunhos tão fortes, foi comovente. Muitos saíram comovidos pela beleza de quando a graça de Deus atua na vida de um casal, no coração das pessoas, e milagres podem acontecer. Não milagres no sentido físico, mas milagres de transformação interior, e foi o que pudemos presenciar hoje, sobre a santidade, uma coisa que parece longe mas que é possível encontrar numa família, apesar de todas as imperfeições, que são próprias de todas as famílias.

O Congresso teve duas vertentes: uma formativa e uma testemunhal. A credibilidade dos testemunhos ajudam a assentar a importância da formação?

Sem dúvida. É muito fácil falar de família, o difícil é viver a família. Por isso, procuramos ter cinco grandes temas, e acompanhar esses temas de testemunhos, que davam força aos temas. Mostrar que não é uma teoria, mas é algo que se pode viver. Acho que isso foi a dinâmica que se procurou, apesar de ter sido um programa um pouco cansativo. Reconhecemos que o formato não é o ideal, mas foi o possível neste contexto de pandemia, no espaço em que estamos, e acho que a graça está na força dos testemunhos para mostrar que aquilo que propomos pastoralmente. Foi uma proposta mais pastoral que teológica, não foram expoentes das universidade que falaram, não foram cardeias nem bispos, e dos 63 oradores 59 eram leigos casados, uma força muito grande do testemunho das famílias.

Há sempre a dificuldade, no final destes encontros, de saber como levar isto para as dioceses e países de origem?

Tudo está nas mãos deles. O Papa, no final do encontro, dá o mandato e faz o envio de todas as famílias. O facto de tudo ter ficado no site do encontro faz com que muitos possam pegar dali novamente: os textos, os vídeos, é muito fácil podermos retomar e, em cada lugar, vai depender muito da realidade e da capacidade de adaptação à realidade local, mas acredito que fica um material potente, valioso para o pós-encontro, e que eles possam levar como uma missão irradiar tudo o que falámos aqui. Um exemplo claro é o documento sobre os itinerários catecumenais para a vida matrimonial. Esperemos que esse documento seja valioso para as conferências episcopais, mas sabemos que depende muito de cada lugar adaptar à sua realidade. É uma proposta, não uma camisa de forças, para que, dentro do que foi discutido aqui, possa calçar de alguma maneira na realidade local.

Esse é um dos pontos mais fortes que gostavam que os participantes levassem, o da preparação para o matrimónio. É chave para trabalhar o todo da família?

Certamente. Foi a primeira prioridade do Dicastério quando começámos a trabalhar o planeamento estratégico. Este documento é fruto de mais de 3 anos de trabalho, muita reflexão a partir de um pedido do Santo Padre. Foi ele que nos empurrou, com os seus vários discursos, especialmente ao tribunal da Rota Romana, em que falava da importância de um catecumenado para o matrimónio, e fomos fazendo esse trabalho, com a ajuda de especialistas para ver como propor algo que possa aterrar nas realidades locais, e esperamos que possa ser uma chave na forma de lidar com as famílias daqui para a frente, que o casamento não seja um momento, mas um processo que começa já na infância, com uma tomada de consciência da vocação matrimonial como uma chamado de Deus, passe pela Pastoral Juvenil e que culmine numa preparação consciente para o sacramento do matrimónio, como a presença de Cristo na vida do casal, e que seja bem acompanhado, especialmente nos primeiros anos. Todo um caminho para que as famílais se sintam acompanhadas pela Igreja e possam viver o sacramento não como algo social, que depois corre o risco da nulidade, como estamos a ver cada vez mais, mas justamente um caminho consciente de vivência de um sacramento, um sinal da presença de Deus na família.

Esse acompanhamento é a grande novidade da Amoris laetitia… e será que implicará mais mudanças. Uma área em que a Igreja vai ter de aprender a reforçar.

Sim, é um tema que saiu reforçado no Sínodo da Família e no Sínodos dos Jovens, e na Amoris laetitia, porque o Papa Francisco convida-nos a escutar e acompanhar cada realidade, tal como é, não partindo do ideal, mas partindo da realidade, é um esforço e uma aprendizagem que a Igreja precisa de fazer e está a fazer, e é um dos pontos fortes da proposta. Em alguns casos, é ajduar a perceber a graça do matrimónio, que nem sempre é compreendido na preparação para o casamento. São chamados a viver uma graça, e muitos casais casam sem essa consciência, por mais que tenham feito algum tipo de preparação. Esperamos que essa chamada de Cristo como vocação, querendo estar presente na vida da família, uma presença que precisa de ser cultivada, que muitas vezes não existe, porque muitos casais nem sequer rezam juntos… espero que seja um dos pontos fortes dessa proposta.

Ficou de fora a questão do acolhimento às uniões homossexuais. É uma temática que ainda precisa de ser aprofundada?

A Igreja deve acolher a todos, e é isso que o Papa diz na AL. Temos de fazer esse esforço de acompanhamento das realidades como elas são. É algo que precisamos aprender a acompanhar melhor essas realdiades, sem mudar em nada o que é a doutrina e o ensinamento da Igreja, mas que todos sintam que podem ter um lugar e sentirem-se acolhidos no seio da Igreja.

Como é que olha para a decisão de reverter Roe v Wade nos EUA?

É uma decisão histórica, e toda a decisão que é a favor da vida é algo que nos alegra. Quando há pessoas que se esforçam para, no âmbito da política e da sociedade, promover e defender a vida, uma decisão como essa só pode nos alegrar.

Confunde-se o direto das mulheres com a defesa da vida do bebé?

Faz lembrar a campanha que se fez na Argentina quando surgiram esses temas: nós somos pelas duas vida, a vida a mulher e a vida da criança, a Igreja vai estar sempre a defender as duas vidas.

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