A astronomia no tempo de D. Dinis

A astronomia no tempo de D. Dinis
Carlos Fiolhais, Físico

Quando o rei D. Dinis (1261-1325, rei em 1279) criou, em 1 de Março de 1290, o «Estudo Geral» em Lisboa, iniciando o que é hoje a Universidade de Coimbra, já o reino português levava 147 anos. O que se passou de mais importante na astronomia nesse quase século e meio?

Ao contrário do que é corrente, a Idade Média está longe de ter sido uma «noite de dez séculos». A ciência astronómica foi sempre avançando, embora mantendo a cosmovisão aristotélica, adoptada por Ptolomeu, na qual a Terra estava no centro do mundo e os cinco outros planetas então conhecidos – Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno – circulavam à volta da Terra. A Divina Comédia, do italiano Dante Alighieri, escrita entre 1308 e 1320 e publicada em 1472, apresenta esse modelo aristotélico-ptolomaico, com os planetas em circunferências concêntricas. Para explicar os retrocessos dos planetas do céu, foi preciso criar, ainda na Antiga Grécia, um conjunto de epiciclos, que Ptolomeu incorporou no seu modelo. Epiciclos são pequenas circunferências percorridas por um planeta em torno de um ponto que por sua vez percorre uma grande circunferência em torno da Terra.

O rei Afonso X de Castela (1221-1284, rei em 1252), cognominado o «Sábio» ou o «Astrólogo», que era avô de D. Dinis, conhecia bem esse sistema geocêntrico com os epiciclos. O “Sábio” apoiou a escola de tradutores de Toledo, um grupo de cristãos, judeus e muçulmanos que assegurou a transmissão de muitas obras da Antiguidade Clássica, e mandou instalar um observatório astronómico também nessa cidade. Foi também o compilador das chamadas Tabelas Afonsinas, completadas em 1270, que descrevem as posições dos planetas em 1252, o ano da sua coroação, e o principal impulsionador dos Libros del Saber de Astronomia, preparados entre 1276 e 1279, portanto pouco tempo antes da fundação da primeira universidade portuguesa. As duas obras teriam ampla circulação até ao Renascimento. É famosa uma citação muito conhecida, mas apócrifa, de Afonso X: «Se o Deus todo-poderoso me tivesse consultado antes da criação, eu teria recomendado algo mais simples». O facto de o poderoso rei de Castela se interessar pela astronomia revela o alto estatuto dessa ciência no século XIII. Decerto que em Portugal, no tempo de D. Dinis, se conheciam as obras de Afonso X. Segundo alguns historiadores, D. Dinis teria recebido do seu avô os Libros del Saber. Mais tarde, D. Duarte (1391-1438, rei em 1433) chamaria, no Leal Conselheiro (1438), a Afonso X «aquele honrado rei astrólogo quantas multidões fez de leituras».

Nesse tempo, Astronomia e Astrologia confundiam-se, pois, as posições dos planetas serviam para fazer horóscopos. D. Afonso IV (1291-1357, rei desde 1325), filho de D. Dinis, tinha na sua corte alguns astrólogos, como Afonso Dinis, bispo da Guarda e Évora. Já na dinastia de Avis, o rei D. Duarte tinha na sua corte o astrólogo Mestre Guedelha, cujas indicações nem sempre seguiu. Várias décadas volvidas Frei António de Beja (1493-1517), da Ordem de S. Jerónimo, haveria de publicar o seu livro Contra os Juízos dos Astrólogos (1523), onde contesta a profecia de que o fim do mundo seria no ano seguinte. O matemático Pedro Nunes (1502-1578), professor da Universidade de Coimbra, refere-se à astrologia uma só vez, no seu livro De Crepusculeis (1542). Diz ele que o seu discípulo D. Henrique, futuro Cardeal Rei, «se compraz de modo admirável com a teórica da Astronomia, isto é, da ciência que se ocupa do curso dos astros e da universal composição do céu, que não da crendice vã e já quase rejeitada que emite juízos sobre a vida e a fortuna.» Isto, é o sábio português faz questão de separar astronomia, a ciência dos astros, e astrologia, as previsões com base nos astros.

O primeiro almanaque em português, traduzido do latim, Almanaque Perdurável para Achar os Lugares dos Planetas nos Signos (c. 1321), saído, portanto no reinado de D. Dinis, serviu de base a previsões astrológicas. Contudo, os primeiros almanaques portugueses sob forma impressa só surgiram na segunda metade do século XV, destacando-se o Almanach Perpetuum (1496), do astrónomo judeu Abraão Zacuto (c. 1450 – c. 1522), que seria usado durante as viagens de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral.

Um dos eventos astronómicos que ocorreu entre D. Afonso Henriques e D. Dinis não foi registado na Europa Ocidental, mas sim na China e no Japão: Tratou-se da supernova de 1181, que permaneceu visível na constelação da Cassiopeia durante 183 dias. Uma supernova é uma grande estrela que explode violentamente por não conseguir manter o equilíbrio da matéria no seu interior. Só houve nove supernovas observadas a olho nu na nossa galáxia ao longo dos tempos históricos.

No Médio Oriente, a astronomia foi, na Idade Média, cultivada ao mais alto nível pelos muçulmanos. O polímata persa Naceradim de Tus ou Nasir al-Din al-Tusi (1201-1274) construiu, a partir de 1259. um observatório astronómico em Maragha (no actual Azerbaijão), que permitiu completar tabelas dos planetas em 1272. Essas tabelas seriam traduzidas para grego no Império Bizantino, mas não chegaram ao Ocidente. O tempo da globalização do saber ainda estava por chegar.

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