Se uma andorinha faz a primavera

@ imagem Ecclesia
Eu não sei nada do Padre Seabra Lopes a não ser que celebrou o seu 77º aniversário no dia em que nasceu o meu segundo filho.
Sei também que o seu primeiro nome era Angelino, que tinha um sorriso fácil e doce e um humor acolhedor e inteligente.
Quis Deus que fosse ele o meu confessor durante alguns anos e que esses anos trouxessem consigo filhos, redescoberta da vocação e muitas aventuras familiares.
Com muita paciência e oração, o meu confessor ajudou-me a fazer caminho com a segurança colocada no sítio certo e não nas minhas forças.
O desespero surge quando percebemos que não temos como lidar com uma determinada situação, mas isso só acontece porque só pensamos contar com forças humanas e nos esquecemos que Deus é o maior interessado na nossa felicidade e que sempre nos pega ao colo quando tropeçamos.
E não foi só comigo. Tantas e tantas almas que hoje partilham deste carinho sobrenatural e que se sente tão abençoada por ter tido esta oportunidade, por ter sido abençoada pela vida deste sacerdote.
Recordo que tinha uma agenda pequena e meio confusa, onde apontava os aniversários de toda a gente e que sempre se lembrava dos pedidos de oração que lhe faziam.
Recordo que muitas vezes chorei no confessionário, não pelas suas palavras, mas pelo peso dos meus pecados e vergonha dos cantinhos sujos de pó e ele dizia-me “Surpreendes-te de teres defeitos, fraquezas? Não te surpreendas! Ainda não és santa!” E quando eu não chorava, perguntava-me com carinho “Então, hoje não choras? Chora à vontade! “e, sabiamente, sorria porque sabia o quanto me estava a esforçar por não deitar lágrima.
Há pouco tempo, vimos cá por casa um vídeo de uma campanha da marca Milka na Argentina. Chamava-se “Cadena de Ternura”. Hoje, quando soube da partida do Padre Sabra Lopes, pensei nessa “cadeia de ternura” que este sacerdote soube criar e alimentar com o seu sacerdócio. Todos somos chamados a participar na cadeia de ternura que nos rodeia.
Ser sacerdote não é uma profissão.
Ser sacerdote é uma vocação, um caminho de vida. Eu não deixo de ser casada com o meu marido quando estou no trabalho ou quando almoço com uma amiga.
Um sacerdote não o deixa de ser quando toca um instrumento ou passeia de bicicleta.
Nos tempos em que tive o Padre Seabra Lopes como confessor, escrevia alguns textos, como este, para publicação por aqui e por ali.
Quando eram publicados, ele recortava-o direitinho, colocava-o numa mica e dava-mo. Era a sua maneira de me dizer que lia o que eu escrevia e que queria que continuasse a fazê-lo.
E quando eu interrompia a escrita, perguntava-me o que se passava, sempre puxando pela carroça, mesmo quando ela parecia empanada, sem remédio.
Ser sacerdote é isto. É tornar Deus visível neste mundo e ajudar as almas a irem encontrando as melhores respostas para os desafios do seu caminhar.
Se a andorinha faz a primavera,…
Este é por si.
O padre Seabra Lopes faleceu no dia 3 de Dezembro de 2025, dia de São Francisco Xavier.

