Gestão do orçamento pessoal e familiar

Conceitos a conhecer e princípios a seguir para ter tranquilidade e uma boa saúde financeira
Estimado Leitor,
No último artigo sobre Literacia Financeira abordámos um tema muito importante. Apresentámos os vários perfis financeiros relacionados com as tendências de consumo bem como o caminho para o bem-estar financeiro em cada um desses posicionamentos.
Na presente publicação, e porque os temas estão de alguma forma relacionados, vamos iniciar a abordagem sobre a gestão do orçamento pessoal e familiar (que se repartirá em dois artigos), de uma forma pedagógica, com detalhes que sejam relevantes e com exemplos práticos aplicáveis no nosso dia a dia.
Por vezes costuma referir-se que um orçamento é um tópico algo técnico cuja elaboração, controle e execução envolvem alguma complexidade. Contudo, a intenção e objetivo na sua utilização devem apontar exatamente para o contrário.
O orçamento deve tratar-se de uma “ferramenta poderosa”, que permita uma gestão simples e prática, com impacto saudável na gestão das finanças, contribuindo para um resultado mensal positivo (entre receitas e despesas). E caso alguns meses, por razões mais ou menos aceitáveis, ocorram alguns desequilíbrios, o orçamento deverá dar indicações sobre as rúbricas onde atuar e que tipo de medidas aplicar para se reencontrar o rumo certo.
Para além disso, na gestão de um orçamento, o principal “foco” deverá passar essencialmente pela monitorização das receitas e despesas correntes (com o detalhe que referiremos adiante), que no fundo são o nosso “dia a dia financeiro“.
E correndo tudo dentro da normalidade, no âmbito do orçamento previsto, iremos tendo saldos ou resultados mensais positivos (poupanças). Se juntarmos a essas poupanças eventuais receitas extraordinárias, estaremos a criar um “bolo” importante para vários fins, seja constituir (ou reforçar) o nosso Fundo de Emergência seja realizar outros investimentos. Mas já estamos a entrar noutra “dimensão” posterior, a que nos referiremos em futuros artigos, e com objetivos de médio e longo prazo.
No curto prazo, o “foco” é mesmo a gestão equilibrada, rigorosa e flexível do nosso orçamento pessoal / familiar. E para abordarmos as componentes de um orçamento e as várias vertentes a considerar na sua gestão, vamos utilizar a metodologia (questão – resposta), onde detalharemos os tópicos relevantes, designadamente, conceitos, cuidados a ter, recomendações a seguir, exemplos práticos aplicáveis no dia a dia, …
Efetuada esta introdução, vamos então apresentar as respostas a que daremos a devida resposta ao longo deste e do próximo artigo.
O que é um orçamento? – Quais as rúbricas que um orçamento deve incluir? – Que níveis devemos ter num orçamento? – Que tipos de orçamentos podemos utilizar? – Medidas corretivas a tomar em relação a Receitas Correntes e Despesas Correntes? – Ações a evitar no âmbito da gestão orçamental (para suportar Despesas Correntes)? – Qual a abordagem adequada em relação a Receitas Extraordinárias e Despesas Extraordinárias? – Que sugestões podemos apresentar no âmbito da gestão orçamental? …
1. O que é um orçamento?
O orçamento é um instrumento para registo e controle dos nossos movimentos financeiros. Trata-se do GPS que deve orientar as nossas decisões. Em linhas gerais, deve contemplar entradas (Receitas), saídas (Despesas) e resultado (Receitas menos Despesas).
Nos pontos seguintes abordaremos o detalhe que essas rúbricas (Receitas, Despesas e Resultado) deverão apresentar para que o orçamento possa fornecer o nível de informação adequado e permitir tomar decisões em caso de desvios significativos.
Neste âmbito orçamental, deverá existir um maior “foco” nas Receitas Correntes e Despesas Correntes, que são o nosso “dia a dia financeiro”. Isto porque Receitas Extraordinárias nem sempre existem (ou podem mesmo não existir) e Despesas Extraordinárias exigem uma abordagem especifica, a que nos referiremos posteriormente.
2. Quais as rúbricas que um orçamento deve incluir?
Não existe um modelo único de orçamento, no que diz respeito à sua forma e conteúdo. O mesmo pode depender do cariz pessoal do utilizador, das suas necessidades de informação, do detalhe pretendido e da utilização prática que lhe pretende atribuir.
Considerando um modelo de orçamento relativamente habitual, as rúbricas deverão ser repartidas no seguinte:
Rúbricas gerais:
Receitas (R) – Despesas (D) – Resultado (R – D)
Receitas: Repartem-se em Receitas Correntes (RC) e Receitas Extraordinárias (RE).
– RC: Podem incluir Salários, Pensões, Rendas, Juros, …
– RE: Podem incluir Heranças, Bónus, Subsídios (se não forem recebidos em duodécimos), …
Despesas: Reparte-se em Despesas Correntes (DC) e Despesas Extraordinárias (DE).
– DC: Repartem-se em fixas (DCF) e variáveis (DCV)
– DCF: Podem incluir mensalidade de crédito à habitação, água, eletricidade, comunicações, transportes, … Não significam despesas de valor fixo, mas que existem todos os meses e com valores similares, pelo que a margem de atuação nestas despesas é reduzida.
– DCV: Podem incluir alimentação, vestuário, lazer, … Estão relacionadas com atitudes e hábitos de consumo, pelo que a margem de atuação é superior.
– DE: Podem incluir despesas relacionadas com obras, acidente, saúde, cirurgia, … Exigem abordagem específica, como referiremos posteriormente.
Resultado:
Global: R – D / Corrente: RC – DC / Extraordinário: RE – DE


3. Que níveis devemos ter num orçamento?
No âmbito de um orçamento devem existir dois níveis concretos, PLANEAMENTO, que corresponde a uma estimativa mensal do que ocorrerá ao longo do ano, devendo servir de “barómetro”, guia ou orientação e REAL, que significa o que vai ocorrendo na prática, mês a mês.
Caso o planeamento esteja bem estruturado, e depois na realidade, exista organização, compromisso e rigor na sua execução, os dois níveis (PLANEAMENTO e REAL) não deverão estar muito distantes. Mas caso ocorram, nalguns meses, alguns desvios significativos, a análise detalhada do orçamento revelará as rúbricas sobre as quais devemos atuar e que medidas corretivas aplicar para encontrar o devido reequilíbrio.
Hoje ficaremos por aqui que o artigo já vai extenso. No próximo daremos resposta às restantes questões:
– Que tipos de orçamentos podemos utilizar? – Medidas corretivas a tomar em relação a Receitas Correntes e Despesas Correntes? – Ações a evitar no âmbito da gestão orçamental (para suportar Despesas Correntes)? – Qual a abordagem adequada em relação a Receitas Extraordinárias e Despesas Extraordinárias? – Que sugestões podemos apresentar no âmbito da gestão orçamental?
E apresentaremos também algumas recomendações, que poderemos utilizar na prática, com impacto positivo na saúde das nossas finanças.
Boa análise e até breve…

