Vidas Escondidas

Vidas Escondidas
Maria Helena Paes

Há alguns dias quando caminhava pela cidade de Lisboa à beira Tejo deparei-me com um espaço muito agradável, situado ao lado da estação fluvial do Terreiro do Paço com destino ao Barreiro. Um edifício nobre, muito acolhedor, onde se podem adquirir nas diferentes agências os bilhetes que dão acesso aos barcos de turismo que circulam no rio Tejo. Dispõe de diferentes cais bem como de um restaurante, de onde se usufruir de uma vista espantosa sobre o Rio Tejo. Não resisti e sentei-me durante algum tempo a observar, encantada e sonhadora, esta belíssima paisagem com uma enorme vontade de atravessar o rio de barco.

Este edifício, antiga Doca da Marinha que pertenceu à Armada, tendo sido desafetado do domínio público militar e hídrico com vista à sua integração no domínio público municipal, deu lugar ao espaço Centro Tejo, e possui uma loja de recordações, um balcão de informações que inclui todos os passeios de barco disponíveis. Existe igualmente uma exposição denominado “Tejo, Uma biografia”. Fiquei surpreendida com a importante descrição que retratava factos desde o tempo do Paleolítico, referindo a existência de vestígios junto ao Tejo; do Mesolítico, com grande acumulação de conchas; do Neolítico em que “as margens férteis do estuário contribuem para a sedentarização do homem”; no ano 2.000 a. C. as primeiras vinhas plantadas junto à margem, no século I a. C. refere a ocupação romana em qua a cidade de Lisboa possuía o nome Olisipo e prosperava graças ao rio Tejo. A exposição continuava até chegar ao ano 1147, data em que D. Afonso Henriques por terra, e os Cruzados europeus pelo Tejo, cercam Lisboa e a reconquistam aos mouros. E a história continua! Detenho-me no ano 1495 em que a Ribeira das Naus era o estaleiro naval mais avançado do seu tempo. Detenho-me ainda no ano 1497, em que Vasco da Gama parte à descoberta do caminho marítimo para a India, cuja viagem foi relatada em versos épicos por Luís Vaz de Camões.

A dada altura atravessando largos períodos importantes da nossa história, que vou omitir por razões óbvias de falta de espaço, chego a uma referência que me cativa pela sua descrição: “Lisboa amanhecia com o cheiro da maresia do Tejo e com a chegada dos barcos que trazem o peixe. As varinas transportavam-no à cabeça, dentro de canastras. Ouviam-se os seus pregões. As ruas estreitas e íngremes, faziam-se a pé, a cavalo ou de carruagem… A zona ribeirinha estendeu-se sobre o rio… A estação era parte da vida de muitos habitantes e trabalhadores que todos os dias atravessavam o rio”. Ainda hoje o rio Tejo é como que o elo de união entre as duas margens!

Tinha perguntado no balção de informações os horários dos barcos de passageiros que fazem a travessia do Tejo. Fui informada que o Cacilheiro que parte do Cais do Sodré demora apenas 10 minutos a fazer a travessia Lisboa/Cacilhas. Que bom, decidi aventurar-me e fazer o percurso ida e volta, creio que nunca o tinha feito anteriormente. E fi-lo, na verdade, um pouco desiludida porque no meu imaginário os Cacilheiros possuíam um espaço aberto. Tudo muda! Os barcos são mais modernos, mas sem um espaço aberto onde se possa permanecer. Ainda assim fiquei ao pé de uma porta semiaberta de onde podia observar o Tejo. Foi agradável e rápido. Ficou registado para memória futura. Já andei no Cacilheiro! Nos próximos dias, se Deus quiser, gostaria de observar a cidade a partir da outra margem do Tejo.

Uma cadeira de rodas trouxe-me ao pensamento a frase “Vidas Escondidas”. Alguém me tinha referido o sofrimento de um casal confrontado com uma doença grave do marido. A entrega da mulher que cuida a tempo inteiro, com muita fé e espírito de sacrifício, do marido que não pode ficar só. Raramente saia de casa. As ajudas são poucas. Graças a Deus que têm um filho e uma nora exemplares sempre disponíveis para ajudar em situações mais difíceis. Mas não se queixa. Fá-lo por Amor, esquecendo-se de si própria. Quantas pessoas não sofrem em silêncio. Recordei várias situações. A de uma filha que deixou a sua vida profissional para cuidar da mãe a tempo inteiro. As mães que tomam conta dos filhos com alguma patologia grave, os maridos que cuidam das mulheres… São inúmeras as situações existentes que causam tanta dor, preocupação, mas também a alegria pelo enorme espírito de entrega. São os abnegados e maravilhosos cuidadores das vidas, muitas vezes escondidos, que gostariam de ser mais apoiados a nível dos serviços de saúde e sociais. Ainda há muito a fazer no sentido de conceder uma maior dignidade e um maior apoio a estas famílias tão sofridas.

 Às vezes, mais cansados, alguns questionam o porquê da sua permanência neste mundo perante tanto sofrimento, sentindo-se impotentes e pouco apoiados a nível de recursos. No fundo, sabem que Deus quer que vivamos passo a passo, lutando sempre para crescer em diferentes aspetos ainda que seja através do sofrimento. A vida na terra é uma escola para nos fortalecer, procurando não esquecer que a fonte da felicidade está em Deus. É difícil perante tanto sofrimento, mas este também nos faz recordar que a glória e a felicidade nos esperam na Vida Eterna, acolhendo-nos em todo o seu esplendor.

Veio-me ao pensamento a nossa Mãe do Céu, que não foi privada do sofrimento na terra, citando o Magnificat: “Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito; exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua pobre serva. Por isso, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e Santo. Sua misericórdia se estende de geração em geração, sobre os que o temem…” (Lc. 1,46b-55). Termino este artigo denominado “Vidas Escondidas” exaltando os cuidadores e todo o meritório trabalho que desenvolvem em prol dos seus doentes. Na medida do possível, todos temos de procurar ser parte da solução dando o nosso contributo. Lanço um apelo para que sejam criadas mais respostas que vão de encontro às diferentes necessidades sentidas. Que Nossa Senhora, Rainha da Esperança alivie e conforte todos os doentes e os que deles cuidam.

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