UM PAÍS ÁS AVESSAS

 UM PAÍS ÁS AVESSAS
João Paulo Marrocano

Temos passado os últimos tempos focados em três temas, pandemia, eleições e analise de resultados e conflito entre a Ucrânia e Rússia. Outros três, quiçá bem mais importantes para todos nós pouco passaram de notas de rodapé. Seja esse “esquecimento” intencional ou não, importa refletir sobre esses assuntos, suas causas e consequências mais ou menos nefastas para todo o interior do país.

     Estava o país a sair dos excessos da quadra natalícia e a entrar em plena campanha eleitoral quando o governo faz publicar uma portaria que tem influência direta em quase todo o país rural.

    Uma assinatura bastou para que em 126 concelhos se possa aumentar a área de plantação de eucaliptos numa área de mais 36.726 hectares, fazendo de Portugal o 5º país do mundo com maior área desta espécie.

     Surpreendentemente, se olharmos com atenção para este diploma, verificamos que uma grande parte destes territórios são predominantemente agrícolas e não florestais. Na zona do Oeste, apenas 4 municípios não obtiveram autorização para aumentar a área de plantação. Concelhos como Alcobaça, Bombarral, Caldas da Rainha, Lourinhã, Torres Vedras, entre outros, podem agora trocar a produção de “Maçã de Alcobaça” ou “Pera Rocha do Oeste” por pasta de Papel. 

     Esta medida é ainda mais surpreendente se tivermos em conta que este mesmo governo anunciava em plena campanha de 2019 a intenção de reduzir a área de plantação de eucaliptos até 2030. Surpreendentemente também, ou talvez não, é o silencio dos ambientalistas sobre o tema. Para compreender o silencio da hipocrisia basta recuar ao início da legislatura que agora terminou e verificar que uma das primeiras medidas que o Ministério do Ambiente e das Alterações Climáticas tomou foi precisamente distribuir dinheiro pelas organizações que agora se calam.

     Outra das medidas que faz de nós um pais cada vez mais desequilibrado, é o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, uma entidade pública, estar à procura de casas para comprar, nas regiões do Porto, Lisboa e do Algarve. Podem ser apresentadas propostas por parte de qualquer pessoa singular ou pessoa coletiva que seja proprietária dos imóveis, bem como empresas de mediação imobiliária. Em consideração estão as tipologias de T1 a T4, com o valor máximo de 213.000 euros no primeiro caso e de 430.000 no último. O objectivo, diz o Ministério das Infraestruturas e Habitação, “alargar a oferta habitacional pública a custos acessíveis.” 

     Portanto, em vez de se tentar equilibrar o país, uma vez mais o litoral é beneficiado e a tanta vez apregoada “discriminação positiva” é aplicada ao litoral em detrimento do interior.

     Por fim, em Castelo Branco, uma das maiores empresas da região anuncia a deslocalização de parte da produção para a Turquia. Nada de surpreendente para quem conhece minimamente o mercado de trabalho e seu dinamismo próprio de uma zona desertificada. Os problemas da falta de mão de obra, em especial de mão de obra especializada são vários e estão devidamente identificados. 

     Mas há pelo menos três que são fulminantes e que fazem do problema uma espécie de “pescadinha de rabo na boca”. Em primeiro, o êxodo da população mais jovem aliada à moda que durante alguns anos quis fazer de cada um de nós um “doutor”. Ficaram relegadas para “filhos de um Deus menor” todas as profissões técnicas especializadas que agora carecem de técnicos. Por outro, o preço dos combustíveis, das portagens e da total ausência de uma rede de transportes públicos desencoraja qualquer mobilidade para trabalhar, é bom não esquecer que um trabalhador que no interior se desloque 20/25 km gasta por semana mais em combustível que no litoral se gasta por um passe mensal. Por fim, e não menos importante, temos uma administração publica pesada e cheia de assalariados que concorre de forma desleal com um tecido empresarial cada vez mais sufocada.

Unindo os três temas, fica uma dúvida. Será que o interior do país terá vida para além de um enorme eucaliptal? Que futuro nos reserva o paradoxo que nos atinge?

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