Quaresma e Páscoa de cristãos em contraste

 Quaresma e Páscoa de cristãos em contraste
Padre Aires Gameiro

Aproxima-se a celebração mais significativa e fundamental da vida dos cristãos. Tempo, também, em que os cenários e manifestações mais ruidosas contrastam, paradoxalmente, como sucedâneos e contrafações a tomar o lugar da substância. Já a celebração do Natal, aniversário de Cristo que dá sentido a todo o ano de celebrações cristãs, tende a ser para muitos batizados tempo de cartões de trenós de pais natal com caixas avolumadas a percorrer paisagens de neve; e imagens abundantes, a oferecer fartos manjares de peru e ceias baqueteadas de fim de ano em trajes de marca só para ultrarricos. E para cúmulo não faltam entidades políticas que só toleram a palavra Natal mas não o nome do Personagem que faz anos.

Agora, começa a Quaresma (quarenta dias) de preparação para a Páscoa. O sentido fundante das narrativas bíblicas da criação do homem do pó da terra, celebrado na Quarta-feira de cinzas é enevoado por imagens, ruídos e convites para os mil carnavais (com carne de todos os quadrantes do mundo). Quase não se consegue ver ou ouvir nada do tempo forte de preparação da Páscoa dos batizados que apregoam tudo isso. Nem a palavra entrudo (entrada na quaresma). Mas não faltam desforras no alimentos de carne e bebidas antes que seja tarde e sobrevenha o tempo de alimentos magros, abstinências e jejuns, tão fora de moda. Será que fica ainda tempo para dar atenção à moderação e à partilha fraterna com os pobres que jejuam todo o ano? Na quaresma, batizados e adultos que se preparam para o batismo são convidados a uma conversão de arrependimento e abandono de vida mundana; e são convidados a serem escrutinados pelos seus pares de vida cristã, para saber se  já vivem na reta intenção, sinceridade e responsabilidade para Deus que os ama.

Os contrastes não param aqui. Esta quaresma vai-se sobrepor à(s) guerra(s) e às calamidades dos terramotos e inundações. Tanto sofrimento, tantas questões, tantas respostas humanas balbuciadas e incompletas, como sempre são as palavras dos humanos. Só Jesus tem palavras de vida eterna. De quem é a culpa de os outros morrerem na guerra e nas calamidades? Pois, dos bodes expiatórios, mas para os terramotos não se encontram tais bodes humanos, dizem os eruditos. Mas o multipremiado astrofísico Carl Sagan daria outra resposta: a ausência da prova dos culpados não significa evidência de ausência deles. Na Quarta –feira das cinzas ouve-se – “lembra-te que tu és pós e em pó de morte te  tornarás” (Gn 3,19); e S. Paulo escreve: «a paga do pecado é a morte» (Rm. 6,23). Que pecado? Todos, desde primeiro: “Não comam do fruto da árvore que está no meio do jardim, nem toquem nele; do contrário vocês morrerão” (Gen. 3, 3).

Os homens, por vezes, dão respostas certas, mas incompletas. Olhem, dizem e bem, para tantas ações de solidariedade para ajudar nas cidades que ruíram com os sismos. Acorrem boas vontades de quase todo o mundo e aliviam sofrimentos, salvam alguns soterrados, montam hospitais, alimentam e abrigam os que perderam tudo. E ainda bem que muitos fazem estas boas obras. E será tudo? Não. Falta outro sentido para os feridos e estropiados, além dos cuidados de saúde, e para os que ficaram de luto de familiares; e um sentido possível para os que morreram, antes de morrerem e depois de morrerem. Bem sabemos que a morte, o facto mais evidente para todos se tornou tabu. E os da tecnologia sonhadora até já têm presunção de solução fantasiada para acabar com ela, a morte, e dar vida terrena e mundana para sempre, mas só aos mais ricos, com muito dinheiro e sem ressurreição.

Os batizados (cristãos, enquanto não for proibido usar este nome, e ainda houver alguns, pensam outros) são convidados a celebrar Aquele que morreu e ressuscitou. E precisamente a preparar-se na Quaresma para celebrar e renovar a sua fé nessa mesma ressurreição, prometida aos batizados que acreditam n’Ele,  se alimentam das suas palavras de verdade e da comunhão do corpo e sangue que Ele dá para a vida eterna.

E os que sentiram que iam sofrer e sofreram muito, e morreram sob os escombros, não terão tido oportunidade de viver momentos de sentido mais decisivo e transcendente (para além) da morte, ou de vida eterna? Não se pode afirmar e, também, não se pode negar, que tenham sido momentos de contemplação de toda a sua vida, associada a pena e arrependimento do mal feito e de gozo pelo bem praticado. E ainda de religação ao Deus pessoal de amor e misericórdia. No fim de contas, momentos de felicidade na despedida de um cenário de vida, com sofrimento e morte, que se abre para outro cenário onde  «nem os olhos viram, nem os ouvidos escutaram, nem jamais passou pelo pensamento do homem o que Deus preparou para aqueles que O amam» (1 Cor. 2, 6-10).

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