Já visitou algum mosteiro ou convento?

 Já visitou algum mosteiro ou convento?

Talvez sim, provavelmente virado a museu, a hotel, a lar, a estabelecimento prisional, a pousada, a serviço público, ou, então, reduzido a um montão de ruínas, com flora e fauna de assustar e fazer fugir.

O Marquês primeiro, o Regenerador depois, mais tarde a primeira República, foram quem, sempre com mais olhos que barriga e portadores daquela patologia que nada vê de positivo no trabalho dos outros, foram quem iniciou o processo desses destinos. Nada de estranho!

Ontem como hoje, hoje como ontem! A inércia de uns sempre fez de outros o seu bode expiatório!

Embora esses edifícios continuem a falar das histórias da História, não é desses que agora falo. Estou a falar daqueles que continuam a gerar frutos de graça e de misericórdia, verdadeiros oásis no meio dos desertos da indiferença e da vida, em fidelidade ao seu carisma e enraizados no silêncio e na liberdade de claustros ricos em recolhimento, arte e beleza.

E faço-o porque, no dia 27, terça-feira, festejamos o Senhor e Santo Doutor Gregório, que, mercê do Criador, do dom da vida e do seu afincado trabalho, nos olha do alto daqueles eirados que, como prémio, lhe foi dado usufruir para contemplar o desenrolar desta divertida comédia humana.

A ele pedimos, reverentemente, que nos dê um ombrozinho para que possamos saltar as charcas e as paredes deste vale de lágrimas, sem que morramos por capricho, como por capricho morreu, sem gosto pelos conventos e vítima dos seus aferros, a senhora D. Amélia de Alpedrinha, coisa que pode acontecer com os mais atreitos a endoidar o coração ‘por razões que a própria razão desconhece’…. “Morro por capricho”, foram as últimas palavras daquela senhora ao seu imprudente e bacharel marido, assim o testemunha o admirável Abade de Alpedrinha no ‘Cenas Contemporâneas’ de Camilo Castelo Branco. Pudera! E acham que de Camilo se poderia esperar coisa outra?…

O Sr. Doutor Gregório Narek, arménio, não andou connosco na escola, é certo, que nos desculpe este sem cerimónia de tratamento.

Nasceu no século X, entre 945 e 951, por aí, de família instruída. Perdeu a mãe muito cedo, não porque ele andasse por caminhos de vida sem juízo, mas por mor da morte dela.

Ainda jovem, entrou para um mosteiro, um prestigiado centro de cultura e formação, nas margens do Lago Van, onde passou quase toda a sua vida sem qualquer pitadinha de arrependimento. Foi monge, sacerdote, poeta, compositor, literato, filósofo, mariólogo, místico, professor.

Quem sabe diz que ele foi um dos principais expoentes de uma época alta na pintura, arquitetura, literatura e teologia arménias.

Sem se desviar nem afastar do mundo circundante, viveu sempre envolvido nos acontecimentos sociais, políticos e eclesiais do seu tempo, granjeou fama para além das paredes do mosteiro, faleceu por volta de 1010, é venerado como santo.

No seu tempo, a Igreja Arménia, por quiproquós cristológicos, não estava formalmente em comunhão com Roma.

Só em 1742, é que Bento XIV aceitou oficialmente a Igreja Católica de Rito Arménio, incluindo os santos arménios como Gregório de Narek.

Em 1996, São João Paulo II, assinou uma declaração conjunta em que atribuía essa divisão a razões semânticas e a outras incompreensões, mas cujas controvérsias não mais deveriam separar as duas Igrejas.

A República da Arménia situa-se na costa montanhosa da Eurásia, entre o mar Negro e o Cáspio, no sul do Cáucaso. Foi República integrante da União Soviética, faz fronteira com a Turquia, a Geórgia, o Azerbaijão e o Irão.

Foi a primeira nação a adotar o cristianismo.

Transcontinental, localizada na Ásia Ocidental, tem relações com a Europa e vai-se equilibrando entre os vizinhos.

Se os turcos e os mongóis haviam mudado para sempre a sua fisionomia e vida, o genocídio do povo arménio, no princípio do século XX, foi de clamar aos céus, como de clamar aos céus foi o extermínio no Congo Belga, o holocausto dos judeus, o genocídio dos ucranianos, dos circassianos, dos polacos, dos cambojanos, bem como o que aconteceu no Bangladesh, na China, no Ruanda, etc.

As políticas ideológicas, nacionalistas, eugenistas e racistas, alicerçadas num expansionismo de ambição serôdia e num conceito de superioridade em relação aos outros, têm levado ao extermínio de milhões e milhões de pessoas.

Ao longo da história, incluindo hoje, apesar de a sua influência ter ajudado a formar consciências e a produzir leis na direção da paz e da fraternidade universal, muitos líderes da sociedade, escravos da ambição e de protagonismo, têm-se esquecido das exigências do senso comum, das lições da História, do exemplo dos pacifistas, e, sobretudo, têm-se esquecido da Pessoa, da Palavra e dos apelos de Jesus a que sintamos os outros como irmãos, amando-os e protegendo-os.

Sem grande emenda, esquece-se o essencial, é-se mau administrador dos bens que a misericórdia divina nos concede, pretende-se destronar Deus como se isso fosse possível e colocar a jactância humana no trono, julgada dona e senhora dos outros e do mundo, como se deles se pudesse dispor a seu bel-prazer.

Na Arménia, até os restos do mosteiro e do túmulo de Gregório, lugar de peregrinação por oito séculos, foram destruídos, uma mesquita ocupa hoje o seu lugar.

No centenário do Genocídio Arménio, em 2015, o Papa Francisco declarou Gregório Narek como Doutor da Igreja, uma grande alegria para os cristãos de rito arménio.

E numa catequese sobre a paixão pela evangelização, Francisco, falando sobre o monaquismo, lembrou este monge arménio que, disse o Papa, “aprendeu a perscrutar as profundezas da alma humana e, fundindo poesia e oração, alcançou o auge tanto da literatura como da espiritualidade arménia”.

E chamando a atenção para a solidariedade universal da qual Gregório é intérprete, o Papa afirmou que

“entre os monges e as monjas há uma solidariedade universal: aconteça o que acontecer no mundo, encontra lugar no coração deles e rezam … vivem em união com o Senhor e com todos … Como fez Jesus … assumem sobre si os problemas do mundo, as dificuldades, as doenças, muitas coisas, e rezam … com a palavra, o exemplo, a intercessão e o trabalho diário, os monges são uma ponte de intercessão para todas as pessoas … são a verdadeira força, a força autêntica que leva em frente o povo de Deus e nisto tem origem o hábito que as pessoas têm de … quando se encontram com um consagrado, uma consagrada, de dizer: “Reza por mim, ora por mim”, pois sabem que há uma oração de intercessão. Far-nos-á bem … visitar algum mosteiro, porque lá se reza e se trabalha. Cada um tem a própria regra, mas as mãos estão sempre ocupadas: ocupadas com o trabalho, ocupadas com a oração. Que o Senhor nos conceda novos mosteiros, monges e monjas que levem em frente a Igreja com a sua intercessão”.

Papa Francisco

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