Há olhares que dão sentido à vida

 Há olhares que dão sentido à vida

Vivemos a semana dos Seminários.

Não a semana dos edifícios, mas a Semana dos Seminários, Comunidades de vida e formação, constituídas por alunos, formadores, professores, colaboradores, famílias dos alunos e benfeitores.

Sendo a vocação um dom e uma tarefa, esta semana tem muito presente as pessoas que fazem caminho ou colaboram nestas instituições, tal é a nobreza da sua missão e a responsabilidade que abraçam em nome da Igreja.

Desta missão e responsabilidade, porém, não se podem autodemitir as próprias paróquias e os seus movimentos de pastoral, na diversidade dos seus âmbitos de serviço e ação.

Como refere o Decreto conciliar sobre a formação sacerdotal, ‘o dever de fomentar as vocações pertence a toda a comunidade cristã, que as deve promover sobretudo mediante uma vida plenamente cristã.

Para isso, concorrem quer as famílias, que, animadas pelo espírito de fé, de caridade e piedade, são como que o primeiro seminário, quer as paróquias, de cuja vida fecunda participam os mesmos adolescentes, quer todos aqueles que, de algum modo, se ocupam da educação das crianças e dos jovens, principalmente as Associações católicas.

Os sacerdotes, com a sua vida humilde, dedicada e alegre, com a sua mútua caridade sacerdotal e fraterna cooperação, são convidados a cultivar o espírito dos adolescentes a si confiados, de forma que eles possam sentir e seguir de bom grado a vocação divina’ (cf. OT2).

A par desta colaboração de todos, Deus ajuda quem promove, quem acompanha e cuida. Deus concede os dons necessários àqueles que, com reta intenção e plena liberdade, são chamados a participar do sacerdócio hierárquico, para o culto de Deus e serviço da Igreja.

A história de toda e qualquer vocação “é a história de um inefável diálogo entre Deus e o homem, sobre o amor de Deus que chama e a liberdade do homem que responde” (PdV36).

Esta Diocese tem dois seminaristas, em Teologia. Um, de Pedrógão Pequeno, Sertã; outro, de Escalos de Baixo, Castelo Branco.

Têm a formação própria e o acompanhamento vocacional no Seminário dos Olivais, do Patriarcado, a quem estamos extremamente agradecidos.

Aí vivem, convivem e se formam, tendo também aulas na Universidade Católica.

O processo formativo para a vida sacerdotal tem quatro dimensões simultâneas:

“a dimensão humana, que representa a base necessária e dinâmica de toda a vida sacerdotal; a dimensão espiritual, que contribui para caraterizar a qualidade do ministério sacerdotal; a dimensão intelectual, que oferece os necessários instrumentos racionais para compreender os valores próprios do que é ser-se pastor, a fim de os procurar encarnar na própria vida e transmitir o conteúdo da fé de modo adequado; a dimensão pastoral, que habilita a um serviço eclesial responsável e profícuo”.

RFIS,89

Trata-se duma formação que potencia a inteligência e as possibilidades cognoscitivas dos futuros pastores, sim, mas sem deixar de potenciar também as suas capacidades de amar. “A ciência incha, só o amor edifica”, dizia S. Paulo (1Cor 8,1).

Sem defender a ignorância, sabemos que o conhecimento facilmente se traduz em poder, só o amor se traduz em serviço. Fomos criados à imagem de Deus, Deus é amor e fez-se homem, não para ser servido, mas para servir e dar a vida como resgate por todos (cf. Mt 20,28).

Raniero Cantalamessa afirma que, na nossa civilização dominada pela técnica, o homem precisa de um coração para que possa sobreviver nela, sem se desumanizar inteiramente. São aperfeiçoados numerosos métodos para avaliar o quociente de inteligência, o ‘QI’, mas, diz ele, ninguém se preocupa em avaliar o ‘quociente do coração’. E também o da vontade, acrescento eu.

Todos apreciamos o conhecimento e a competência das pessoas e quanto o progresso e o bem-estar lhes deve.

No entanto, só o amor liberta e salva, enquanto a ciência e a sede de conhecimento, sozinhas, podem levar à ruína.

A formação resultará tanto melhor quanto mais o quociente de inteligência, ‘o quociente do coração’ e o ‘quociente da vontade’, que não se podem medir a metro nem pesar na balança, quanto mais forem capazes de se darem as mãos em esforço conjunto. QI+QC+QV = Bons cidadãos do Reino e do mundo.

Ao falar do jovem rico, São Marcos refere que Jesus fitou nele o olhar (cf. 10, 21). Há olhares de indiferença, de superioridade, de condenação, de desprezo, de raiva, de tristeza, de agressividade, de medo, olhares que destroem e matam.

Há olhares de paz, de serenidade, de compaixão, de alegria, de solidariedade, de acolhimento, de confiança, de misericórdia, olhares que atraem, dão vida e esperança.

Regra geral, o olhar revela o que somos, o que nos vai na alma. O olhar amoroso e terno de Jesus, porém, devolve sempre, a quem quer que seja, o significado e sentido da sua existência.

Francisco afirma que a nossa vida “muda quando acolhemos este olhar”. Ele torna presente uma frase atribuída a Miguel Ângelo, que diz que “no interior de cada bloco de pedra, há uma estátua, cabendo ao escultor a tarefa de a descobrir”, bem como lembra o provérbio oriental que diz que “um sábio, ao olhar o ovo, sabe ver a águia; ao olhar a semente, vislumbra uma grande árvore; ao olhar um pecador, sabe entrever um santo”.

E isto acontece “graças à arte do Escultor divino que, com as suas ‘mãos’, nos faz sair de nós mesmos”.

Este Escultor delineia em nós “a obra-prima que somos chamados a ser”. Ele “vê potencialidades, às vezes ignoradas por nós mesmos, e atua incansavelmente, ao longo da nossa vida”.

É um olhar de amor que ‘sempre nos alcança, toca, liberta e transforma, fazendo com que nos tornemos pessoas novas’. Sabemos, porém, que tudo o que é dom de Deus, também implica tarefa humana, há que colaborar, com alegria.

Quer no seu tempo, quer ao longo da história, houve sempre quem se apercebesse e acolhesse esse olhar penetrante de Jesus e com Ele fizesse caminho.

As suas vidas mudaram, muitas famílias modificaram o seu rumo, a dinâmica de muitas comunidades alterou-se, toda a sociedade beneficiou.

E se Jesus olha a todos de forma cativante e transformadora, também é preciso que nós, tal como naquele sábado em Nazaré, jamais deixemos de colocar os nossos olhos n’Ele: “Estavam postos sobre Ele os olhos de todos os que se encontravam na sinagoga” (Lc 4,20).

Jesus continua a estender o seu olhar sobre cada criança, cada jovem ou adulto, com esperança.

E continuam a existir jovens atentos e generosos a abraçar estes desafios de serviço à comunidade humana que o Senhor lhes propõe, convidando-os ao sacerdócio.

Que todos, famílias e comunidades cristãs, colaboremos para que os jovens acolham generosamente esse olhar terno de Jesus, esse olhar sincero e amigo, que transforma e dá outra direção e outro sentido à vida e às coisas da vida.

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