Faz sentido o Dia da Mulher?

 Faz sentido o Dia da Mulher?

É um dia cheio de complexidades. Faz sentido?

Como mulher não me sinto confortável com a celebração da data.

Não é bom prenúncio. Admito, porém, que nascer do sexo feminino continua a ser, em algumas partes do mundo, sinónimo de muito sofrimento.

Nos países em que se assinala a efeméride, com celebrações quase diárias, a propósito de tudo e de nada, o significado esbate-se e perde a relevância que lhe é devida.

Estas datas estão associadas a realidades frágeis, a questões de grande vulnerabilidade, a algo que necessita de atenção.

As mulheres já deram provas suficientes, ao longo de muitas gerações, para não dizer desde sempre, que merecem reconhecimento e respeito sem precisarem de um dia específico por ano.

É uma data que me remete para as mulheres da minha família que fizeram de mim o que sou hoje. As avós, as tias e especialmente a minha mãe que criou nove filhos com coragem, dedicação e sabedoria.

Lembro também as mães da geração da minha que viram partir os seus filhos para a guerra colonial. As que não os voltaram a ver ou os receberam amputados no corpo e na alma.

Com a aproximação da celebração dos cinquenta anos do 25 de Abril, quem se lembra dessas mães e das viúvas?

De novo, e quase sem interrupção, milhares de outras mulheres, nas guerras do presente, continuam a perder os filhos e os maridos e a sofrer uma dor maior e inimaginável para muitos de nós.

Talvez já nem tenham ninguém para lhes oferecer uma flor ou um simples carinho.

Gostaria que o dia 8 de março fosse outra coisa qualquer. Muitas mulheres sentem-se humilhadas por precisarem de ter um dia. E têm razão.

Haja coragem para termos consciência do que podemos e valemos. As mulheres carregam no seu ventre toda a humanidade. Todos os corações bateram em uníssono com os seus.

Algumas têm tendência a minimizar as suas capacidades, porém, elas são infinitas. Até a natureza lhes concedeu privilégios especiais.

Neste dia, e em todos os outros, as palavras e os gestos serão inúteis se não brotarem do coração.

O mundo hoje necessita de ser abraçado cordialmente, como património natural de todas as mulheres e de todos os homens. Congregar a família, construir pontes e fazer da terra um lugar mais habitável é trabalho de ambos e de mãos dadas.

Hoje o meu abraço solidário é para todas as mulheres que vivem ou viveram a dor imensa de uma guerra e de muitos outros sofrimentos. Do meu coração uma flor para todas e cada uma.

*Maria Leonarda Tavares

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