Eu, abaixo-assinado, afirmo solenemente…

Eu, abaixo-assinado, afirmo solenemente…

EU, ABAIXO-ASSINADO, AFIRMO SOLENEMENTE

Dom Antonino Dias, bispo de Portalegre-Castelo Branco

No ato de posse que investe alguém em cargos de responsabilidade, o empossado ou empossada costuma prestar um compromisso de honra: “Eu, abaixo-assinado, afirmo solenemente pela minha honra que cumprirei com lealdade as funções que me são confiadas”. Empenha-se a honra, solene e publicamente, sob uma assinatura que até parece tanto mais digna do ato quanto mais difícil de decifrar ela for. A honra fica assim encriptada na assinatura à espera de novos desenvolvimentos para maior clarividência, logo se verá!

Nunca viram? Eu já, no momento fica-se feliz, a adrenalina da esperança sobe ao alto. E sobe tanto mais alto quanto mais os discursos elevam à suprema potência a capacidade dos empossados e a sua vontade de bem servir. E bem, é bonito de se ver e ouvir! E ninguém é tão maluco que queira exigir aos empossados a máxima perfeição das suas artes futuras em prol do bem comum. Todos se deixam acreditar no brio da sua coerência à palavra dada. Naquela hora, é quanto basta para inspirar e fortalecer a confiança de todos. É o primeiro garante de credibilidade e a certeza de que o bem e o bom irão acontecer. E, diga-se a verdade, a grandíssima maioria, apesar das fragilidades e dificuldades, esmirra-se a cumprir. Procura realizar com humildade e eficiência a sua missão, tantas vezes com prejuízo da sua própria vida pessoal, familiar, profissional e social. E tanta e tanta dessa gente fá-lo em regime de voluntariado, gratuitamente. Para eles, um abraço apertadinho, um abraço de coração eternamente grato.

Não raro, porém, também surge o inesperado, as exceções a confirmar a regra. Emergem consciências viçosamente verdes, como a erva, como a erva mais viçosa que se possa ver ou imaginar. Um pitéu apetecível a fazer nascer água na boca de qualquer transeunte herbívoro, e pronto, ponto, a erva deixa-se comer. E lá se vai a consciência com grande pena, prejuízo e até escândalo. E lá se foi a solenidade daqueles airosos atos em salões tão nobres, sempre aflorados com gente perfilada em expectante e grave silêncio! Seja por falta de bom discernimento sobre a responsabilidade que se assume; seja porque não há preparação e capacidade para desenvolver tal missão; seja porque só se tenta, para inglês ver, mas, de facto, não há determinação e envolvimento quanto baste para o conseguir; seja porque aquilo não era o que se pensava e logo se desiste, se entra em letargia ou em rédea solta; seja lá pelo que for, a coisa fica feia. Comprometer-se é mais do que prometer, implica saber, determinação da vontade, verdade, coerência, honestidade, capacidade de ultrapassar dificuldades, alegria e esperança.

Macacos me mordam se eu não gostasse de ser poeta para versejar epicamente alguns destes casos, aqueles casos em que os protagonistas foram belíssimos atores no teatro daquele solene momento e agora dão continuidade ao espetáculo enquanto se descodifica a tão snob assinatura. E eis que, já sem as pancadas de Molière, surge um senão a surpreender os espectadores e a fazer mossa ao próprio. E quer o leitor saber qual é esse senão? Ei-lo: por entre as contestadas suspeitas de quem investiga; por entre a declarada tranquilidade de consciência de quem, sonegadamente, se vai pisgando do palco; por entre a estranheza de quem se vê perante alguém que afirmou, solenemente, pela sua honra, servir com lealdade; por entre a não dignificação da palavra dada; perante tudo isso e mais o que for, surge, de facto, um enorme senão: de quando em vez, alguém vai preso em nome da liberdade de uns e da tranquilidade de outros. Que chatice tão chata! Isto da liberdade ter os seus caprichos é mesmo uma maçada, sobretudo quando se pensa que a liberdade consiste em fazer o que dá na gana e esquecer o que se deve fazer.

Mas será mesmo que o mundo vai de mal a pior? Talvez não, acho que não foi o mundo que piorou, embora nem tudo nele seja boa rês ou flor que se cheire. Acho que foi a democracia que se encheu de brios e melhorou o seu adn e a sua tarefa. E isto apesar de a justiça ser boa para ir buscar a morte: ou não chega ou chega tardíssimo. Acho também que a generalidade das pessoas está mais atenta a Frei Tomaz, que diz mas não faz ou faz o que não diz.

Diz-se em gíria popular que de boas intenções está o inferno cheio. Não só o inferno, digo eu. Também este vale de lágrimas conta nos seus arsenais toneladas e toneladas desses epifenómenos. E digo-o sem estar a revelar qualquer segredo de justiça ou a meter a foice em seara alheia. E, podemos crer, nem todos esses epifenómenos são objeto dos detetives da ciência forense, estes são poucos para tão gigantesca tarefa!

Não menos sério é que, em muitas circunstâncias da vida, também se fazem promessas a Deus: o Batismo, a Confirmação, o Matrimónio e a Ordenação comportam sempre promessas. Por devoção pessoal também se promete a Deus este ou aquele ato, uma oração, um donativo para uma causa, uma peregrinação, uma visita, uma mudança de atitudes, e também se fazem votos. Sejam votos, sejam promessas feitas a Deus, à Virgem, aos Santos e aos outros em nome de Deus, também se compromete a honra, a fidelidade, a veracidade e a autoridade divinas. E todos constatamos que, muitas vezes, a palavra dada não é respeitada, também tem os seus pecadilhos, e que pecadilhos! Sobretudo quando fazemos por as esquecer para as não cumprir ou as cumprimos a meias ou simplesmente as rasgamos ou decidimos que ficam ‘pagas’ em conclusões meramente subjetivas, fazendo passar a mensagem, para nós e para os outros, de que Deus – que é fiel à palavra dada e fidelíssimo às suas promessas -, de que Deus e nós somos sócios e comparsas nestas aventuras, modos e jeitos: “eu cá e Deus me entendo”!

Ninguém é juiz seja de quem for, como é evidente. Até porque se pode correr o risco de apontar o argueiro no olho do outro e esquecer a trave que está no nosso. Tal como se julgar os outros, assim se será julgado, está dito e escrito. Cá na terra, porém, há sistemas de justiça para manter a lei, sistemas que julgam, absolvem ou condenam quem é acusado de transgredir a lei. Para além deste mundo, mesmo sem querermos separar a justiça da misericórdia, há sobretudo misericórdia, a infinita misericórdia de Deus justo e bom. O que seria se não houvesse, sim, o que seria! Neste mundo, porém, sem julgamentos, sem absolvições ou condenações, todos nos vamos sentindo no dever de distinguir o que está certo e o que está errado, mesmo que o certo e o errado também possam depender de leituras diferentes.

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