Este arder do coração não é doença…

Este arder do coração não é doença…
Dom Antonino Dias

É saudável e recomenda-se, fortalece a missão com a humildade de não ter resposta para todas as perguntas! Numa condescendência sem limites, Deus foi-se revelando, de forma histórica e progressiva. Ao criar, aceitou ‘autolimitar-se’ a fim de que a criatura pudesse existir “fora dele”, com autonomia e liberdade. A criatura humana, porém, logo fez soar as campainhas, usou mal da sua liberdade. No entanto, neste carpir de mágoas, nunca Deus deixou de lhe falar. Falou-lhe por palavras, por acontecimentos e pelos profetas, sempre lhe falou como amigo. Neste relacionamento de Deus com o homem e do homem com Deus, estava em causa a manifestação do amor de Deus pelo homem e o seu plano de salvação para todo o mundo. Por força da lei escrita no seu coração e de outros apoios para o seu peregrinar, o homem, mesmo tropeçando e caindo muitas vezes, foi fazendo caminho. Percebeu a existência de Alguém fora dele. Alguém que veio ao seu encontro e com ele quis fazer uma aliança. Alguém que, apesar de muitas vezes o homem lhe ter sido infiel, Ele permaneceu sempre fiel, nunca o abandonou, nunca deixou de lhe estender a mão nem se inibiu de fazer maravilhas em seu favor, provocando-o ao bem e ao melhor. Graças a esta pedagogia divina, o homem foi transformando o seu coração de pedra em coração de carne, foi tomando consciência dos seus limites, foi descobrindo a importância da fidelidade à palavra dada, da fidelidade à aliança firmada, do bem que era o bom uso da liberdade. O homem foi sentindo a alegria da fidelidade e o peso da transgressão, a alegria de ser amado e perdoado, a necessidade de se abrir às surpresas de Deus e de confiar nas promessas de que melhores dias haveriam de vir, mas sempre aos ziguezagues. E eis senão quando, num gesto supremo de amor, depois de nos ter falado muitas vezes e de muitos modos, Deus nos falou por meio do seu próprio Filho (cf.DV4). Sim, a Palavra de Deus por meio da qual tudo foi criado, o Verbo de Deus encarnou. A Palavra eterna do Pai entrou no mundo, no espaço e no tempo. Com a sua encarnação, “o Filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada homem. Trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-se verdadeiramente um de nós, em tudo semelhante a nós, exceto no pecado (GS22). “Veio para o que era seu” (Jo1,11), identificou-se com o Pai: “quem Me vê, vê o Pai”, tornou-se próximo e amigo e disse-nos que aquilo que fizéssemos aos outros era a Ele que o fazíamos. Como companheiro de viagem, todos se maravilhavam com a sua presença, a sua simplicidade, a sua palavra, a sua sabedoria e o seu poder. A entrega na Cruz, a sua paixão, morte e ressurreição constituem a maior prova e revelação de quanto Deus nos ama. A todos quantos o receberem deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus (cf.Jo1,12). A resposta do homem a Deus cuja essência é o Amor, a resposta do homem é a fé, é ter a fé de Deus, do Deus de Abrão, Isaac e Jacob. E a fé vem-nos da escuta da Palavra, abrindo a mente e o coração à inspiração, força e ação do Espírito Santo, é um processo dinâmico, nunca acabado.

A Exortação Apostólica sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, fala da sacramentalidade da Palavra de Deus, experimentada sobretudo na Liturgia. E se há uma forte relação entre a Palavra e o Sacramento, entre o gesto e a palavra, isso ganha maior profundidade aplicado à celebração da Eucaristia. A Palavra eterna do Pai torna-se presente, é atual e atuante, dirige-se a todos e a cada um, cria vínculo entre quem fala e quem escuta, tem caráter performativo, é viva e eficaz, não há separação entre o que Deus diz e faz em favor de todos e de cada um dos homens.

A narração sobre os discípulos de Emaús, por exemplo, fala-nos do vínculo que há entre a escuta da Palavra e a fração do pão. Jesus, no Domingo da Ressurreição, fez-se-lhes encontrado no caminho. Enquanto caminhavam, escutou a sua tristeza, a sua esperança desiludida, manifestou-se familiar às suas vidas e foi-lhes explicando quanto as Escrituras diziam a respeito ao Messias que haveria de vir. Os dois discípulos começaram a sentir as Escrituras de forma diferente, começaram a perceber que os acontecimentos daqueles dias, não eram um fracasso, mas o cumprimento das Escrituras e o começo de algo de novo. No entanto, ainda não estavam a entender tal como gostariam de entender. Só quando Jesus tomou o pão, o abençoou, o partiu e lho deu, é que se lhes abriram os olhos e o reconheceram. A presença de Jesus, primeiro com as palavras e depois com o gesto de partir o pão, é que tornou possível aos discípulos reconhecê-lo e apreciar de outro modo tudo quanto tinham vivido anteriormente com Ele: «Não estava o nosso coração a arder cá dentro, quando Ele nos explicava as Escrituras?» (cf. Verbum Domini, 52-54). A Palavra de Deus, proclamada e celebrada na Liturgia, faz “arder o coração”, conduz à Eucaristia, faz-se carne sacramentalmente, é pão vivo descido do céu, gera discípulos missionários a fazer arder corações até ao fim do mundo. O Dia Mundial das Missões lembra-nos que somos enviados ao mundo, “não só para fazer a missão, mas também e sobretudo para viver a missão”. Não só para dar testemunho, “também e sobretudo para ser testemunhas de Cristo”.

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