Entrevista: “Os produtos de madeira vão ter valor…”

Entrevista: “Os produtos de madeira vão ter valor…”

Avaliar o ciclo da vida das estruturas de madeira e calcular o seu impacto ambiental foi o objetivo de André Dias, natural do Vale da Mua, Freguesia de Proença-a-Nova e Peral, que apresentou recentemente, 10 de Maio, a sua tese de doutoramento. Licenciado, mestre e doutorado em Engenharia Civil, pela Universidade de Coimbra, André Dias de 28 anos está hoje na Grande Entrevista do Jornal de Proença.

Jornal de Proença (JP) – André primeiro que tudo porquê abordar este tema na tua tese?

André Dias (AD) – Eu tirei Engenharia Civil em 2016 (licenciatura com mestrado integrado), e como consegui ter uma boa avaliação no final do curso, fui convidado por um dos meus Professores para me candidatar a uma bolsa de doutoramento. Felizmente, consegui essa bolsa. Depois quando foi para escolher o tema, eu queria um tema que não fosse só mais um tema académico para ficar numa prateleira. Eu queria um tema que fosse uma referência para mim e que fosse uma ferramenta para a sociedade. Foi então que decidi juntar três mundos, para mim muito importantes: o mundo da Engenharia Civil, que eu já tinha estudado e de onde tinha a minha formação; o mundo da floresta que na altura, em 2016/2017, era o grande tema em debate; e o mundo dos impactes ambientais, devido ás crescentes preocupações com alterações climáticas.

JP – Engraçado essa ligação entre Engenharia Civil e a floresta. Não é algo muito comum!

AD – A ligação à floresta já vem do meu mestrado! Durante o mestrado temos a possibilidade de escolher uma especialização de Engenharia Civil e eu escolhi estruturas e mais tarde decidi fazer a tese em estruturas em madeira. Confesso que na altura quando foi para escolher a especialidade estava indeciso sobre dois temas: uma era sobre o urbanismo, como construir as cidades e organizar a sociedade, e outra que era estruturas em madeira. Eu olhei à minha volta, e através de algumas conversas percebi que os produtos da nossa floresta tinham pouco valor, especialmente para os proprietários. Rapidamente percebi que era um assunto que precisava mais de investigação e era mais importante para o região onde tinha nascido e crescido.

JP- Cálculo então que chegado ao final de todo este processo deves ter chegado à conclusão que há um vasto mundo a explorar no que à floresta diz respeito!?

AD – Sim! Os produtos da floresta têm uma grande vantagem que é o facto de terem muito valor acrescentado.

A rentabilidade que estamos a tirar é muito baixa porque há poucas iniciativas de investigação e desenvolvimento associados aos produtos da floresta, e da pouca investigação que há, os produtos são muito básicos e muito semelhantes entre si. Isto significa que as indústrias do sector, se apostarem mais na investigação e com algum investimento, conseguem produzir produtos que dêem valor ao mercado da cadeia de valor desses produtos. E dando valor ao mercado estamos a dar valor aos produtores. Dando valor aos produtores faz com que estes estejam mais sensibilizados para cuidar, limpar e gerir a floresta, seguindo as boas regras. E claro que fazendo tudo isto estamos a reduzir o risco de incêndio e a salvar vidas humanas.

JP- Nós vivemos numa zona em que a floresta é dominante, e onde pessoas tanto no passado, e algumas ainda no presente, vivem deste meio. Justifica-se essa baixa investigação que falas e que não permite essa valorização?

AD – Não é só na nossa região. Neste sector e a nível nacional, a indústria na nossa região tem algum receio das colaborações com a investigação e com as universidades.

JP- Poderá ser pelo facto também de termos uma população muito envelhecida?

AD – Eu não acho que seja por isso! Por exemplo, no Alentejo temos uma população muito envelhecida e temos agora a agricultura a ser tomada pelos jovens. O que vejo aqui é algo que acontece em alguns temas de investigação, que é um afastamento entre a indústria e a investigação por diferença de objetivos. Ou seja, a indústria tem como principal objetivo o aumento do rendimento e a academia tem como principal objetivo resolver problemas de desenvolvimento. São caminhos diferentes. Quando estes caminhos se cruzam, os resultados ou são bons ou são maus. Na investigação estamos habituados a saber lidar com os resultados maus e a usá-los para melhorar os processos e melhorar o desenvolvimento. Para a indústria, devido á pressão económica que existe no mercado focada para os resultados, percebo que seja difícil arriscar em ter maus resultados. Há setores onde a investigação e a indústria fazem um casamento perfeito e onde os seus caminhos se cruzam com muita facilidade, como é o caso da indústria farmacêutica. As próprias empresa têm gabinetes de investigação que utilizam para desenvolver novos produtos, patenteá-los e colocar no mercado. Todas as decisões são tomadas com base em conhecimento cientifico, porque se percebeu que isso leva a melhores produtos e maiores rendimentos. No setor da floresta porque há muitas mais variáveis em jogo, os processos e as tomadas de decisão, e até o próprio conhecimento dos produtores florestais e das pessoas que estão ligadas à indústria, não têm uma base científica forte, na maioria dos casos. Há alguma base científica, mas a base científica que é usada na indústria, não é uma base que evolua e que acompanhe as tendências e as necessidades dos grandes mercados internacionais. Assim, acabamos por estar sempre a utilizar os mesmos métodos e a produzir os mesmos produtos, não existe uma evolução significativa. Refiro-me a alguns sectores florestais e aqueles mais próximos de nós, não a todos, felizmente.

JP – Mas isso é uma questão interessante para nós que temos sofrido tanto com os problemas florestais. Há alguma justificação para isso?

AD – Eu acho que é uma questão cultural! Nós temos que nos habituar a fazer planeamento a médio e longo prazo e não estamos habituados a fazê-lo. E isso leva a que as nossas decisões não sejam pensadas para ter impacto a mais do que 10 anos. Nós na floresta quando plantamos uma árvore estamos a pensar num rendimento a 20/30/40 anos e não é um rendimento a cinco anos, como alguns investimentos que se fazem noutras áreas. Temos de nos mentalizar que investir hoje, só trará rentabilidade dentro de 20/30/40 anos.

SerQ – Centro de Inovação e Competências da Floresta, na Sertã

JP – Achas que esse pode ser um travão para quem quer investir na floresta?

AD – Sim! Com as pessoas e as realidades que conheci durante o meu Doutoramento, apercebi-me que quem investe na floresta, olha para a floresta como investimento que se faz com uma conta poupança, por exemplo. Tu fazes o investimento inicial e vais todos os meses colocando dinheiro, recebendo juros e garantindo a proteção do teu dinheiro. Ou seja, na floresta fazes o investimento inicial para plantar e de tempo a tempo vais ter que voltar a investir para limpar e cuidar da floresta para aumentar a produtividade do teu investimento. É claro que quando tens dinheiro no banco há um fator de risco, há sempre um fator de risco, até na floresta. Temos as doenças, temos os incêndios, o que leva a que quem queira investir na floresta a certa altura questione se o investimento que fez trará rentabilidade suficiente para se pagar a ele próprio.

Temos de reduzir riscos e aumentar a rentabilidade dos produtores aumentando o valor acrescentado dos produtos da nossa floresta. Uma das formas de fazer isso é através de investigação e conhecimento científico que está a ser produzido, por exemplo, no SerQ, Centro de Inovação e Competências da Floresta, na Sertã, aqui ao lado. No SerQ, olhamos para as necessidades do mercado, em especial da construção, e estamos constantemente a tentar entender de que forma é que os produtos de madeira, podem ser usados para esses fins.

Assim, podemos aumentar os mercados dos produtos de madeira, e aumentar o rendimento final dos proprietários. Um exemplo, é o uso que se faz do Eucalipto, onde estamos a tentar entender de que forma é que podemos valorizar esses produtos sem ser para produção de pasta de papel.

JP – Tu no teu doutoramento, segundo sei, fizeste todo esse plano do que toca aos impactos ambientais!

AD – Sim, eu no meu Doutoramento fiz uma abordagem ambiental a este problema. Comecei por comparar os impactes ambientais de diferentes espécies de madeira. Ao fim de 40 anos na floresta, comparei os impactes ambientais de madeira em toro de Pinheiro-bravo, Eucalipto, Pinheiro-Silvestre, Casquinha e Criptoméria. Depois comparei os impactos ambientais de madeira serrada dessas espécies, madeira lamelada colada, vigas em forma de I em madeira, e madeira micro-lamelada. Depois comparei ainda o uso desses produtos no uso de um pavimento residencial e de um passadiço exterior em madeira.

Nos resultados, fiquei impressionado com as vantagens ambientais do Pinheiro-bravo (nacional) em comparação com os produtos importados. Já em comparação com outros produtos de construção, não foi diretamente feito pelo meu doutoramento, mas é possível concluir que as estruturas em madeira têm um melhor desempenho ambiental do que os outros produtos de competição no mercado, como é o caso do betão e do aço.

A pegada de carbono da madeira até é negativa. Nós para produzirmos um metro cúbico de betão temos que ter uma central a trabalhar e estamos a emitir gazes com efeito de estufa. E para produzirmos um metro cúbico de madeira, durante o crescimento das árvores, através da fotossíntese elas estão a capturar dióxido de carbono e esse carbono fica retido na madeira e não é libertado para a atmosfera. Ao ficar retido na madeira não está a ser prejudicial ao ambiente. Ou seja, quantos mais produtos de madeira tivermos no mercado, mais carbono está armazenado e estamos a combater o aquecimento global. Agora o que é que é importante neste processo todo? É quando cortamos uma árvore plantar outra de forma a garantir a continuidade de captura do carbono.

Sessão de apresentação da Tese de Mestrado

JP – Mas isto depois não vai criar um senão? Porque a madeira não tem a mesma durabilidade que outras estruturas.

AD – Criou-se aqui um mito em volta da durabilidade da madeira. A madeira tem uma boa durabilidade, é preciso é nós sabermos tomar as decisões certas! É preciso escolher qual a espécie de madeira que vamos utilizar, qual os tratamentos que aplicamos, qual o produto de manutenção que aplicamos, temos que tomar todas essas decisões com base no conhecimento científico. E porque é que nós muitas vezes não tomamos essas decisões? Porque quem pede a obra ou até o próprio gabinete de arquitetura e engenharia não têm os conhecimentos suficientes e nos cadernos de encargos não colocam os requisitos necessários para garantir a durabilidade da madeira. Este é mais um exemplo em que a investigação pode ser uma mais valia para os produtos de madeira.

JP – O que é que podemos fazer então para retirar toda a rentabilidade possível dos produtos de madeira?

AD – Um dos caminhos é através da investigação, como já falei. Temos de continuar a investigar novos produtos e a descobrir novas forma de rentabilizar as matérias-primas da floresta e que poderão dar rendimento aos proprietários e à indústria. Para isso, a indústria, a investigação e os proprietários têm de trabalhar em conjunto e fazer dos objetivos da investigação aqueles que são os problemas da indústria e dos proprietários. Para aumentar rendimento, temos de aumentar o nosso conhecimento sobre os produtos. Temos de saber quais são todas as formas de rendimento que um pinheiro nos pode dar. Posso também falar em árvores de fruto, que através dos ramos cortados durante as podas podem ser uma fonte de energia para produção de energia, os matos, que podem ser usados para produzir painéis de isolamento térmico de paredes. Temos tantos produtos da floresta que podem ter usos tão variados e alguns deles com elevada rentabilidade para toda a cadeia de valor. Temos de os explorar. O problema é que os principais interessados nesta rentabilização são os proprietários e devido ao minifúndio é difícil haver um agrupamento de objetivos de todos os proprietários com capacidade para investir em investigação para valorizar os produtos que têm. Ainda assim, já existem muitas alternativas e novos produtos e métodos que podem ser usados para valorizar os nossos produtos.

JP – Mas olhando para a nossa região, vês alguma aposta nestas questões?

AD – Sim, existem alguns bons casos de sucesso de empresas que usam produtos da floresta produzidos através de métodos inovadores resultantes de investigação e conseguem assim aumentar o valor desses produtos e aumentar rendimentos, quer da empresa, quer dos proprietários. Contudo, acho que ainda estamos muito longe daquele que é o verdadeiro potencial destes produtos. Existe ainda um caminho muito longo a ser feito. Felizmente, parece-me também que existem instituições no território que estão preparadas para dar este salto no sector florestal, como é o caso do SerQ, que apoiou desde o início o meu trabalho de doutoramento onde consegui precisamente estudar uma forma de aumentar o rendimento dos proprietários e das empresas. Mais virado para a temática do meu doutoramento, ainda não existe muita aposta em Portugal na contabilização de impactes ambientais. Acho que tem de começar a ser feita, quando mais depressa for, melhor será para todos.

Eu acredito que daqui a uns anos nas compras públicas e privadas, ao vender um produto tens de saber o impacto ambiental do mesmo. Quando for obrigatório que a contabilização do impacto ambiental seja feita, os produtos de madeira vão ter valor, pelo reduzido impacto ambiental que têm. E ao ter esse reduzido impacto ambiental as empresas vão perceber que têm de dar um salto e começar a usar produtos em madeira e aí acredito que os territórios com muita floresta, como o nosso, vão ter mais atenção e os produtos vão ter mais valor.

JP – André depois de tudo isto o que é que se segue na tua vida?

AD – Não sei. Os últimos anos, para mim, foram muito difíceis. Objetivos que tinha há dois anos, hoje em dia deixaram de fazer sentido e eu não tive ainda tempo de voltar a pensar nos novos objetivos de forma clara. Esta fase final foi muito dura. Mas durante o doutoramento descobri que uma das coisas que me satisfaz e me deixa realizado é poder transformar o conhecimento em rendimento e consequentemente em qualidade de vida, quer seja para mim, quer seja para as pessoas que utilizam esse conhecimento nas suas vidas. É resolver aquela ponte que falávamos ao início, entre a academia, a indústria e a sociedade, tentando sempre melhorar a qualidade de vida de todos, em especial de quem vive em territórios de floresta, como é o nosso caso em Proença-a-Nova.

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