Entrevista: Marcadores de Gerações de Vidas Artes Solidárias

 Entrevista: Marcadores de Gerações de Vidas Artes Solidárias

Renata Luiza Trecenti Cristovão Matile é natural de Lençóis Paulista, SP, Brasil, e residente em Bauru, SP, Brasil. Filha de Adélia Trecenti Cristóvão, brasileira e de Joaquim da Silva Cristóvão, português, nascido em Corgas, Fatelo e residente no Brasil.

Formada em Jornalismo pela Universidade Católica de Campinas e com formação técnica em música (piano), dança moderna e teatro, atualmente trabalha com a dança flamenca, como professora e coreografa, trabalho com o qual realiza eventos beneficentes.

Infelizmente, por causa da atual pandemia, está com as atividades suspensas.

Renata Cristóvão (RC) é entrevistada por Libânio Martins (LM), natural das Corgas, aldeia do Concelho de Proença-a-Nova, residente em Lisboa.

Libânio Martins (LM) – Como é que surgiu o seu encanto pela dança flamenca?

Renata Cristóvão (RC) – Em 1987, fui a Portugal com meu pai. Quando estava a passar à frente a um Casino vi num cartaz que naquela noite havia um espetáculo de dança flamenca. Disse ao meu pai que gostaria de ver e ele aceitou prontamente. Fiquei muito encantada com aquela dança. Eu nem piscava para não perder nenhum detalhe, daquelas mãos, daqueles sapateados e expressão forte. Quando voltei ao Brasil comecei logo a procurar aulas.

LM – Que eventos da vida de sua Família atribui especial significado?

RC – Eu sempre fui muito família. Sempre tive uma ligação forte com a família do Brasil, por parte da minha mãe, como com a do meu pai, de Portugal. Admiro muito o seu trabalho, “À Descoberta de Memórias da Aldeia das Corgas – Concelho de Proença-a-Nova”. Agradeço muito, pela oportunidade e aprendizagem. Posso dizer que o principal evento para mim, de coração, foi a primeira vez que visitei Portugal. Desde criança sempre ouvia meu pai falar da sua terra e da sua família. Quando eu tinha 11 anos o meu pai realizou o nosso sonho de levar toda a família a conhecer a nossa família Cristóvão e o Fatelo. E ele fez questão de estarmos aí presentes para o Dia de Nossa Senhora do Carmo – Padroeira da Aldeia das Corgas. Esse evento, inclusive, está registrado no Jornal de Proença-a-Nova. Lembro-me bem da emoção que foi chegar ao Fatelo e ver a Vó Nazaré pela primeira vez, parece que ainda a estou a ver à espera em frente da casa branca, com o lenço preto na cabeça. Fiquei muito feliz também quando me pediu para escrever sobre o tio Pe. Manuel Joaquim Cristóvão na ocasião da homenagem a seis padres naturais da Aldeia das Corgas. Senti muito por não estar presente, mas fiquei muito satisfeita pelo meu pai ter ido e participado. Na verdade, se eu for comentar sobre todos os factos marcantes da minha vida com minha família de Portugal, precisava de escrever um livro.

LM – Porque uma mulher “Luso Descendente” (Brasileira e Portuguesa) escolhe a Dança Flamenca como marca de sua formação, atividade profissional e performativa, como Diretora, dançarina e coreógrafa do grupo?

RC – Foi uma mistura de paixão pela arte, desde aquele espetáculo na Figueira da Foz e oportunidades que foram acontecendo. Eu comecei a dar aulas por acaso. Recebi um convite e até achava que ainda não estava preparada, mas a minha professora na época, Josiane Romera, apoiou-me e comecei. A troca de energia com os alunos e acompanhar o processo de aprendizagem deles foram-me envolvendo. Sempre aprendi muito com eles. Não parei mais. Mesmo quando precisei ficar sete anos afastada com problemas de saúde, assim que melhorei, foram os meus alunos que me chamaram de volta a atividade.

LM – Pode falar-nos do desenvolvimento do seu projeto artístico na dimensão de solidariedade e sobre os benefícios para a comunidade?

RC- Eu iniciei a Academia Tablado Flamenco em Lençóis Paulista, em 1996, e, desde o segundo festival que realizei passei a fazer todos os eventos beneficentes. Atualmente sou professora de flamenco nessa mesma Academia e dou aulas na cidade de Bauru. Com esses alunos formamos o Grupo Tablado Flamenco. Como aqui no Brasil é muito difícil sobreviver de atividades artísticas, decidimos mostrar a nossa arte com apresentações sempre beneficentes. É muito gratificante podermos ajudar quem precisa. A entidade a ser beneficiada é sempre selecionada na localidade da apresentação e aquela que mais necessita de donativos.

LM- Vi num dos seus cartazes que vocês têm o patrocínio da THOMRRIS, pode falar um pouco sobre a dimensão ambiental dessa empresa.

RC– A Thomrris é uma empresa brasileira produtora de embalagens plásticas para as indústria cosmética e farmacêutica. Essa empresa sempre nos apoia em eventuais eventos para nos ajudar com o material gráfico necessário, locação de serviço de som e iluminação. Para figurino e o trabalho artístico em si, o grupo exerce um trabalho voluntário. Sobre o papel da Thomrris no contexto ambiental, trata-se de uma empresa signatária do Acordo Setorial para efetivação da Logística Reversa. Dos resíduos gerados pelo processo de produção, 100% são reciclados para não causar impacto ambiental. Os demais são enviados a organizações beneficentes que levantam recursos com a venda desses resíduos.

LM- Que lhe conta o seu pai sobre “Filhos da Resina”, a propósito da prevista localização de “Centro de Interpretação da Resinagem – Espaço Museológico na Aldeia das Corgas?

RC- Eu e meu pai achamos uma iniciativa maravilhosa eternizar essa atividade que foi tão marcante e importante nessa região de Portugal. Quando entrevistei meu pai sobre esse assuntou, ele emocionou-se muito. “A resinagem foi a atividade mais importante na nossa região depois da Segunda Guerra Mundial”, disse ele.

LM- Como avalia a situação no Brasil, Portugal e o mundo em que vivemos, atualmente e em mais de meio século da sua vida e para o futuro?

RC- Pergunta bem complexa. Sempre fui muito entusiasmada pela vida, muito curiosa e otimista. Por tudo que aprendi, vivi e venho aprendendo, tanto o Brasil, Portugal e outros países sempre tiveram e sempre têm muitos problemas a enfrentar. Atualmente está bem difícil por causa desta pandemia causada pelo novo coronavírus, que abalou o nosso modo de viver, a economia, as relações sociais e internacionais e aqui no Brasil está a provocar uma crise política também. Nunca esperava vivenciar isto. Portanto, mesmo diante das maiores adversidades acho que precisamos continuar confiantes e acreditar sempre que o melhor está por vir, por nós, pelos nossos filhos e futuras gerações.

LM- Podemos esperar por algumas pessoas ou pela família de visita e ou para se fixarem aqui em Portugal?

RC- Tenho o sonho de um dia viver aí, temporária ou definitivamente, não sei. Mas espero ter essa oportunidade na minha vida. Escolheria Proença-a-Nova. Gostaria de conviver perto dos meus primos Maria dos Anjos e António (Tonito). Assim como convivo aqui com os familiares da minha mãe. O meu filho também tem essa intenção, ele pretende divulgar o seu trabalho de música em Portugal, projeto que eu apoio muito. Enquanto isso, pretendo ir de visita assim que possível, adoro Portugal e minha família.

LM- Que gostaria de nos transmitir sobre Valores e Talentos – Missão de Vida – da sua pertença à família “Cristóvão de Corgas e Fatelo”

RC– Primeiramente, gostaria muito de agradecer a todos os Valores da vida, culturais e religiosos que essa família sempre me ensinou. E espero que sempre confiem e valorizem os vossos talentos e preservem os seus valores às nossas futuras gerações.

LM- Que mensagem gostaria de deixar às pessoas, familiares, amigas e conterrâneas das Corgas e Fatelo?

RC- Preservem a vossa cultura, acreditem sempre em vocês para enfrentar as dificuldades que aparecem e procurem ser solidários e muito felizes, pois, por mais que vivamos, esta vida é breve. Que Nossa Senhora do Carmo proteja sempre esta terra e toda sua gente.

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