Crise energética

Numa altura em que tanto se fala em crise energética na Europa, chegou a altura de falar de outro tipo, provavelmente tão ou mais séria do que aquela que nos chega diariamente pela televisão. Esta outra crise energética está relacionada com cada uma das células que compõem o nosso corpo. Alguma vez pensaram o que nos dá energia? Porque conseguimos correr, saltar, pensar, ler este texto com mais ou menos atenção? Tal como qualquer eletrodoméstico caseiro necessita de eletricidade para trabalhar, as nossas células também necessitam de energia para funcionar. Para isso, todas as células têm no seu interior verdadeiras pilhas que geram energia a cada segundo, essencial para o seu funcionamento. Sem essa energia, as células rapidamente iriam entrar em falência energética e morreriam, comprometendo funções do nosso corpo.

A estas pilhas chamamos mitocôndrias. Nas nossas células existem dezenas ou até mesmo centenas destes organelos microscópicos (com excepção dos glóbulos vermelhos, onde não os podemos encontrar). As mitocôndrias não só têm um papel essencial na produção de energia, como também participam na regulação de iões (incluindo cálcio), na síntese de biomoléculas essenciais e, pasme-se, nas decisões celulares de vida ou morte. A energia que as mitocôndrias produzem ocorre sob a forma de uma molécula denominada adenosina trifosfato (ATP). Vastas quantidades de ATP são produzidas diariamente nas nossas células, a partir da degradação de moléculas derivadas dos nossos alimentos, num processo denominado fosforilação oxidativa e que leva ao consumo de oxigénio. Portanto, quando ouvirmos falar em respiração celular, lembremo-nos que é nas mitocôndrias que ocorre. E a fosforilação oxidativa ocorre muito graças à geração de separação de cargas positivas entre dois lados da membrana mitocondrial, muito à semelhança de uma bateria. Podemos dizer que flui eletricidade dentro de nós.

Podemos ter crises energéticas nas nossas células? A resposta é sim, podemos. Imaginemos as nossas mitocôndrias como pequenas pilhas que ao longo do nosso envelhecimento vão perdendo a sua carga. Mais ainda, a produção de energia pela mitocôndria pode diminuir devido a vários fatores externos, desde exposição constante a poluentes ambientais, ao consumo de álcool, tabaco e drogas de abuso, devido a efeitos secundários de vários medicamentos ou ainda devido a hábitos de vida pouco saudáveis. Comparemos por um instante dois sujeitos: o indivíduo A, que faz atividade física regular e que tem uma alimentação equilibrada, rica em vegetais, frutos e com baixo teor de açucares e gorduras, e o indivíduo B, que passa o dia sentado a computador a trabalhar e a escrever textos sobre mitocôndrias, tem muito pouca atividade física, e que tem uma alimentação descuidada, com um consumo diário elevado de alimentos ricos em açúcar e gordura. Se formos analisar a capacidade dos diferentes órgãos dos dois indivíduos para produzir energia mitocondrial, é lógico que o indivíduo A tenha uma produção superior e uma população mitocondrial mais saudável. E isto tem consequências. O indivíduo B está mais exposto a doenças que resultam em agressões à população mitocondrial, precisamente pela mesma ter uma menor capacidade. A doença hepática, renal, cardiovascular, e muitas doenças do sistema nervoso central têm uma forte componente de dano mitocondrial, sendo que a sua evolução ou recuperação depende muito da extensão daquele defeito e da capacidade que a célula terá para repor uma população daqueles organelos saudável.

A crise energética mitocondrial pode ainda ser causada por um defeito nas instruções codificadas no nosso ADN, nomeadamente ao nível do ADN mitocondrial. De facto, as nossas mitocôndrias possuem igualmente moléculas de ADN, sendo um código genético presente em várias cópias por célula. Doenças mitocondriais primárias ocorrem por alterações presentes à nascença nesse ADN que comprometem o seu funcionamento e a sua atividade. Sendo estas moléculas o livro de instruções para o correto funcionamento das nossas mitocôndrias, é de esperar que elas sejam defeituosas e não consigam fornecer a energia que deveriam. Estas doenças raras são quase sempre fatais, afetando crianças de tenra idade que deixam de conseguir ver ou mesmo mexer os seus músculos.

Como resolver as potenciais crises energéticas celulares? Vida saudável, incluindo dieta e atividade física, evitar poluentes, toxinas, consumo de álcool, tabaco e drogas. E se mesmo assim isto falhar, resta-nos saber que os cientistas diariamente estudam estes fantásticos organelos e como protege-los de danos indesejáveis. Começamos, portanto, a ouvir falar cada vez mais de terapias mitocondriais. Vamos ver o que o futuro reserva em termos da proteção das nossas pilhas interiores.

*Paulo J. Oliveira, Investigador Principal do Centro de Neurociências e Biologia Celular, Universidade de Coimbra

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