Cartas a Guiomar: As virtudes (17)

Cartas a Guiomar: As virtudes (17)

Querida Guiomar,

Os mandamentos da Lei de Deus são as vedações que delimitam o terreno seguro da nossa vida, as barreiras que nos impedem de soçobrar no mar alto. Mas a vida do cristão não consiste em andar ali à beirinha do abismo, em equilíbrio precário, a ver se não cai lá abaixo; isso já não é mau, mas é francamente desinteressante. O mais interessante da nossa vida é a quantidade de coisas maravilhosas que podemos construir no gigantesco território que temos à nossa disposição. A nossa vida não consiste em andar constantemente preocupados com o que não podemos fazer, mas em cultivar activamente tudo aquilo que somos chamados a fazer.

E como é que somos chamados a fazê-lo? Pois bem, em conformidade com as virtudes. E há muitas virtudes que podemos cultivar, cada uma mais atractiva do que a anterior; todas as pessoas agradáveis que tu conheces são pessoas que cultivam as virtudes – algumas sem disso terem bem consciência, algumas sem um esforço sistemático, mas a verdade é que tudo aquilo que é agradável na convivência humana é consequência da prática da virtude.

As virtudes, que são hábitos operativos que podem ser recebidos de Deus ou adquiridos pela repetição de actos, dividem-se em dois grandes grupos: as virtudes teologais, que dizem respeito exclusivamente a Deus – a fé, a esperança e a caridade – e as virtudes que também dizem respeito a nós próprios e aos outros. Estas últimas assentam em quatro virtudes básicas, as chamadas virtudes cardeais (que já vêm da antiguidade clássica), que são: a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança. Qualquer delas é extremamente útil para a vida prática e a procura da felicidade, mas o verdadeiro segredo está em as cultivar a todas harmoniosamente, procurando através delas alcançar a vida eterna.

A prudência é a virtude por meio da qual discernimos o que é o nosso verdadeiro bem e os meios que temos de utilizar para o alcançar. É por meio da prudência que percebemos que a vida eterna tem mais valor do que a vida temporal, e que portanto, em caso de conflito, devemos preferir as coisas que dizem respeito à primeira. Mas também é através da prudência que temos uma visão ampla da nossa existência neste mundo e que percebemos que as decisões que afectam a vida toda são mais importantes do que o menu do jantar do nosso dia de anos; e que um amigo que nos diga umas verdades que custam a ouvir é melhor do que um amigalhaço que nos diz que somos os maiores (bem te disse que era uma virtude utilíssima!). É pela prudência que analisamos as causas e as consequências das nossas decisões e dos acontecimentos que nos cercam, aprendendo com o que se passou (e com o que não se passou). É pela prudência que avaliamos o valor das outras pessoas, admirando quem realmente merece ser admirado e não apenas quem é famoso; e que aprendemos a apreciar o que é nobre e belo. É pela prudência que distinguimos o bem do mal, as opiniões dos conhecimentos, as hipóteses dos factos.

A prudência adquire-se aprendendo a ouvir e gastando tempo a reflectir; contrariando os impulsos e os sentimentos, que são quase sempre uma fonte de temeridade; e tendo em todas as coisas uma atitude de ponderação. Ao contrário do que possa parecer, a prudência não é uma virtude passiva, porque também exige que, nos momentos próprios, se tomem decisões. Mas é uma atitude de pessoas que, sempre que podem, deixam passar uma noite sobre um problema – embora nunca deixem decorrer um dia mais do que o necessário para o resolver.

A justiça é a virtude que nos faz dar a cada um – a Deus, aos outros e a nós (por esta ordem) – o que lhe é devido. Na justiça está incluída a virtude da piedade, que nos leva a praticar devotamente a religião; a virtude da obediência, que nos leva a acatar as indicações dos nossos legítimos superiores; e a virtude da equidade, que é o hábito de tratar bem os nossos iguais e as pessoas que nos estão subordinadas. É graças à justiça que somos capazes de assumir a responsabilidade pelos nossos actos, mesmo quando (ou sobretudo quando) metemos o pé na argola. Também é a virtude da justiça (aliada à fortaleza) que nos leva a tratar-nos a nós próprios sem paninhos quentes, contrariando a nossa inevitável tendência para termos pena da nossa gloriosa excelência.

É ainda com base nesta virtude que aprendemos a respeitar a dignidade e a liberdade das outras pessoas. A justiça impede-nos de fazer juízos sobre os outros, e mais ainda de propagar afirmações desagradáveis sobre as outras pessoas (com maioria de razão se não forem verdadeiras). Conta-se de um confessor, a quem um penitente se foi acusar de ter dito mal de uma terceira pessoa, que lhe deu como penitência encher um saco de areia da praia, espalhá-la ao vento num campo e a seguir apanhar todos os grãos que tinha espalhado; quando o penitente olhou para ele, espantado, afirmando que jamais conseguiria cumprir semelhante penitência, o confessor explicou-lhe que era precisamente o que ele tinha feito à fama e ao bom nome da pessoa de quem dissera mal. O que dizemos sobre uma pessoa é repetido uma, duas, cinquenta vezes, sem que nós consigamos controlá-lo, e se depois quisermos retractar-nos, já não sabemos aonde vai aquela opinião inicial.

A alegria é uma das virtudes filhas da justiça e uma das mais características dos cristãos. É justo que estejamos alegres porque somos filhos de Deus e beneficiamos gratuitamente do Seu amor incomensurável; a alegria é uma expressão da virtude da gratidão: um cristão triste é uma pessoa extremamente mal agradecida. Mas a alegria é uma virtude, o que significa que não é a boa disposição do animal satisfeito. Nós não estamos alegres apenas quando a vida nos corre bem, quando não temos fome nem frio, as pessoas gostam de nós e temos uma conta bancária recheada; a alegria dos pagãos é que depende dessas coisas. Nós estamos alegres mesmo quando nos doem os dentes, quando apanhámos uma chuvada, quando se riem de nós e quando somos despedidos. Claro que, se nos morre alguém querido, choramos de pena; claro que as humilhações nos custam a aceitar e que o dinheiro não nos cai do céu. Mas, independentemente de tudo isso, temos a certeza absoluta do amor de Deus, e essa é que é a fonte da nossa alegria.

Outra das virtudes incluídas na justiça é a lealdade, que consiste na fidelidade às pessoas e instituições relativamente às quais temos compromissos, e que, no caso da lealdade ao próprio país, se chama patriotismo.

A fortaleza é a virtude graças à qual perseveramos firmemente no bem, mau grado as dificuldades. Pela fortaleza, aguentamos de pé firme as contrariedades, as dores, as desilusões e o tédio (que às vezes custa mais que as outras todas juntas). É pela fortaleza que alcançamos a persistência necessária à realização das coisas difíceis. Poucos são os grandes criadores que não tiveram de recorrer a esta virtude nos começos (e nos meios) da sua actividade. Quando, nos anos 20 (há quase cem anos), criou o Rato Mickey, Walt Disney, o pai do cinema de animação, tinha de desenhar mais de 14.000 desenhos para fazer um filme de 10 minutos. Já imaginaste? Mais de 14.000 desenhos em sequências mínimas (o pé esquerdo ligeiramente mais para cima, o pé direito ligeiramente mais para trás, a cabeça ligeiramente mais para o lado, os olhos ligeiramente mais abertos) para conseguir fazer um filme de dez minutos (e já nem te falo do que teve de fazer para introduzir o som)! Foi graças a essa persistência que nos legou personagens imorredouros e uma obra-prima como Fantasia. É por isso que se diz que as grandes obras de arte são 10% de inspiração e 90% de transpiração.

É a fortaleza que nos dá a capacidade de resistir quando nos apetecia desistir. Uma vez, um treinador de futebol explicou-me que o que distingue um jogador talentoso dum grande jogador é a capacidade de sofrer. Isso mesmo: a capacidade de sofrer. A capacidade de aguentar mais cinco minutos, mais dez minutos, mais uma hora de esforço intenso quando tinha a possibilidade de largar tudo e ir tomar duche.

Também é graças à fortaleza que temos a coragem de que precisamos em situações adversas: a coragem de enfrentar um inimigo, a coragem de lutar pela verdade quando os ambientes são contrários (que inclui a coragem de não termos em consideração a ideia que as pessoas vão fazer de nós quando temos de dizer que o bem é bem e o mal é mal). A fortaleza é a virtude típica dos mártires, que continuam a morrer assassinados por causa do seu amor a Cristo, mas também dos confessores da fé (como o Papa), que avançam destemidamente para países hostis, sem receio de manifestações desfavoráveis.

É pela fortaleza que combatemos a preguiça (que nos levantamos a horas, que apagamos a televisão a horas, que desligamos o telefone a horas) e que trabalhamos com diligência. É pela fortaleza que praticamos a cortesia com todas as pessoas (as que nos tratam bem e as que nos tratam mal, porque a nossa virtude não está dependente dos outros) e que evitamos queixar-nos quando alguma coisa não nos corre como tínhamos planeado. E é também pela fortaleza que afrontamos o combate aos nossos defeitos, sem nos desculparmos com os defeitos dos outros (uma tendência muito arreigada na espécie humana): a circunstância de «toda a gente» copiar nos testes não é justificação para tu fazeres o mesmo!

A temperança é a virtude pela qual temos domínio sobre os nossos instintos, aprendendo a dizer que não a nós próprios. É o hábito de não estarmos dependentes dos nossos apetites, de sermos nós a mandar neles em vez de serem eles a mandar em nós; e tanto se aplica aos apetites maus (beber demais) como aos bons (beber), porque o segredo da temperança é o controlo sobre nós. A temperança adquire-se com a prática: se chegamos a casa cheios de sede, podemos esperar dez minutos antes de ir beber; se ouvimos cair uma mensagem no telemóvel, podemos deixá-la estar quieta meia hora; se sai um aparelho novo, podemos aguardar três meses antes de o comprar; se estreia um filme de que estamos à espera há que tempos, podemos ir vê-lo só na semana seguinte. Se uma pessoa nos irrita, respiramos fundo e contamos até vinte antes de responder – e nunca da mesma moeda.

É pela temperança que aprendemos a ter paciência, porque não temos direito a tudo imediatamente. E que aprendemos a ter clemência, que consiste em saber perdoar e em moderar os castigos dos culpados. Esta virtude adequa-se especialmente às pessoas que têm como função aplicar a justiça, mas também nos permite ganhar com graça (que é uma coisa dificílima) e perdoar sem insistir na ofensa e na culpa.

A temperança alberga ainda a mais importante de todas as virtudes cristãs, uma virtude que foi inventada por Jesus e que é absolutamente imprescindível para a nossa salvação: a humildade. Ah, a humildade! É uma virtude tão custosa de adquirir, que há quem diga que o vício contrário, a soberba, só desaparece três dias depois da morte do próprio! Pela humildade, reconhecemos a verdade da nossa total dependência de Deus e o facto de, sem Ele, não podermos nada de nada (nem respirar, nem existir, quanto mais projectar catedrais). Mas reconhecemos também as qualidades e os talentos que temos, que nos foram dados por Deus; ou seja, a humildade está longe de se identificar com a falsa modéstia, que é muitas vezes uma desculpa para a cobardia e a preguiça. A humildade, pela qual desviamos a atenção de nós próprios e a concentrarmos em Deus e nos outros, facilita-nos duas atitudes que dão imensa descontracção e paz de espírito: não nos considerarmos especiais, nem com direitos especiais, e não nos espantarmos com os nossos defeitos, nem termos vergonha de pedir desculpa pelas nossas faltas. Se a caridade é o carro que nos conduz ao céu (e é o próprio céu), a humildade é a chave da ignição.

Até amanhã, de Deus quiser!

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