A Enfermagem em S. João de Deus

 A Enfermagem em S. João de Deus

São João de Deus

Padre Aires Gameiro

A novena e festa de S. João de Deus, em plena quaresma, convidam a imitar o sentido da sua enfermagem e de seus cuidados e ajudas, em todas as dimensões, aos mais carenciados, no espírito cristão deste tempo litúrgico. O que procurar e como?

João não escreveu um tratado de filosofia ou teoria de cuidados a doentes, nem um manual de enfermagem. Exerceu uma prática de hospitalidade multifacetada aos pobres-doentes que brotava do pensar e sentir fraterno de irmãos de um Pai de infinita bondade e amor. O Pai ama de tal modo seus filhos, irmãos e irmãs, que lhes enviou Jesus seu Filho para O revelar, amar e dar a vida por todos. Como Jesus disse a Nicodemos, (cf. Jo, 3), João nasceu de novo, do sopro do Espírito, em 20 de Janeiro de 1538, quando recebeu a revelação que era pecador e Deus era misericordioso com ele e com todos os indignos pecadores. Gritou tanto pela misericórdia de Deus que alguns o consideraram louco e conduziram João ao hospital real onde foi tratado com terapêuticas bárbaras do tempo e onde começou a dar exemplo de hospitalidade, cuidando os pobres doentes seus companheiros de enfermaria com compreensão e amor. Para S. João de Ávila, o pregador do sermão de S. Sebastião, João ficou louco de amor e da sabedoria de Deus. Jesus cura os que se aproximam dele e se deixam tocar por Ele, disse o pregador, e essa cura profunda aconteceu com João. O catedrático Prof. Pedro Polónio, em Jornadas de Psiquiatria, com o nome deste Santo, em Janeiro de 1979, (Atas, p. 34,) também afirmou «que todos os seus atos [de João] se enquadram na exaltação mística da revelação da sua vocação».

João surpreendia os seus interlocutores cujos testemunhos foram preservados para os interessados pela sua enfermagem e carisma. Os traços essenciais da sua praxe encontram-se nas suas cartas, na primeira biografia dele escrita por Francisco de Castro (1585) e nos testemunhos de processos judiciais realizados na cúria do arcebispo de Granada após a sua morte, entre 1573 e 1593, e ainda no processo de beatificação a partir de 1624. O famoso Cesar Lombroso (1835-1909), no seu livro Génio e Loucura (1874), entendeu que João foi o genial criador do hospital moderno. O seu primeiro biógrafo parte do seu novo nascimento, de conversão, e descreve-nos um santo “embriagado” do Espírito a praticar toda a espécie de cuidados e ajudas aos pobres, doentes, carenciados, dentro e fora do hospital, e a contagiar a todos com o seu carisma.  

 Na linha da teoria dos valores de Max Scheller, pode considerar-se um modelo misto de santo, génio e pioneiro humanista em inovações nos cuidados de hospitalidade. Tinha para com todos mais que uma relação empática de amor incondicional a ultrapassar a de Carl Rogers (1961). Era como um ferido, curado que se tornou curador, à maneira do que encontramos em Isaias, ao falar do Servo de Javé: “pelas suas chagas somos curados” e que a Igreja aplica a Cristo (cf. Is 53,5; I Pe 2). Com efeito, em cuidados, o que mais cura é a pessoa do curador, antes ferido de dor e culpa, e agora curado. Os gestos e remédios são envolvidos na harmonia de coração do cuidador. O cuidar de João brota do seu coração para os pobres, doentes, inválidos, desagregados, pecadores e demais carenciados de sentido de vida. A assistência de João abrangia dimensões físicas, psicossociais, religiosas e transcendentais de fé na vida para além da morte. As relações do cuidar, eram trianguladas no eu-outro-Infinito (Emmanuel Levinas) e tocavam o coração que sofre, o pobre-doente, corpo e alma, pecador, violento, problemático. Aliviava, consolava, despertava para o sentido, abria à esperança, harmonia, reconciliação, cura de feridas, de doença, humilhação e ódios. Abria-se para um Deus que em Jesus cura feridas, perdoa e harmoniza pessoas, famílias e comunidades. A vida de João está semeada de episódios destes cuidados a pobres, doentes, expostos, famílias, mulheres da rua, inimigos, dentro e fora do seu hospital.

S. João de Deus é muito atual, hoje, tempo em que a história das relações entre ciências, religião e fé se tornou labirinto de conflitos, mais confuso com os iluminismos de Marx, Lenine, Freud e tantos outros, a pretenderem provar que Deus não existe. Afinal, professam a “sua fé” na não existência de Deus. O cientismo agnóstico de extremismos secularistas não sabe o que fazer aos santos da Igreja. Deus ausente? No dizer do grande cientista Carl Sagan: a ausência da evidência não significa evidência de ausência.

A enfermagem de todas as dimensões de João hospitaleiro é incompatível com tal “cientismo” reducionista que pensa anular as crenças religiosas e a fé cristã de doentes e sãos no Deus único que se revela por Jesus Cristo. S. João de Deus continua modelo atual de cuidador de bem-estar e sentido multidimensional por excelência.

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